O mórbido e o lúdico. Dois conceitos tão antagônicos que só um grande autor conseguiria fazê-los coexistir de maneira tão satisfatória ao longo de duas horas. Guillermo del Toro conseguiu. A Forma da Água funde o macabro e o poético com uma precisão cirúrgica. E vai além. O novo trabalho do cultuado cineasta mexicano reafirma a sua já tão conhecida preferência temática por monstros, e escancara sua paixão pelo próprio cinema. Em dado momento, certo personagem diz: “Vamos ajustar nossos relógios, como fazem nos filmes!” É relevante ressaltar, portanto, que a criatura apresentada na projeção não deve ser vista como o seu principal atrativo, pois esta história tem muito mais a oferecer. Trata-se de um romance em clima de fábula sinistra, em que predominam as personalidades, a atmosfera, as metáforas, as críticas contundentes à nossa sociedade que vive querendo esconder seus preconceitos. E em meio a uma época em que Hollywood passa por seríssimas acusações de assédio, é no mínimo curiosa a constatação de que o longa traga uma protagonista que, mesmo muda, tenha tanto a dizer. E ela diz, à sua maneira, expondo sua visão sobre amor, amizade, aceitação… sobre a vida.

Eliza (Sally Hawkins) não se deixa intimidar por ser desprovida da fala. Ela gosta de apreciar seus momentos, sejam eles particulares (você saberá exatamente sobre o que me refiro logo nos minutos iniciais da projeção), seja na companhia de seu vizinho, o pintor frustrado Giles (Richard Jenkins), com quem gosta de assistir aos musicais clássicos que são exibidos na programação da TV daqueles ingênuos anos 1960, em que a paranoia gerada pela Guerra Fria era amenizada pela tentativa da sociedade (e do sistema) em dar continuidade ao ‘sonho americano’. Eliza e Zelda (Octavia Spencer) trabalham na limpeza do turno noturno (!) de uma instalação militar do governo norte-americano. É para lá que é levada uma criatura anfíbia humanoide, capturada na Amazônia por um agente (Michael Shannon, mantendo de maneira eficiente a mesmíssima expressão fechada de Zod em O Homem de Aço). Imediatamente o expectador percebe quem, afinal, é o monstro do filme.

Embalado por uma trilha sonora saudosista – composta pelo competente Alexandre Desplat – que reflete a inocência da época, o longa é permeado ainda por trechos de obras audiovisuais convenientemente nostálgicos, que vão desde Summer Place até Carmem Miranda! Filmes bíblicos também marcam presença, pois Eliza mora em cima de um cinema em que eles sempre estão em cartaz. E como é prazeroso estar em uma sala de projeção e assistir a uma produção em que, em dado momento, os personagens também lá estão, constituindo uma quase metalinguagem que nos lembra do maior motivo para a existência desses lugares, independentemente da quantidade de pessoas presentes: o cinema existe para emocionar.

Del Toro, fã dos filmes de monstros da Universal, bebeu na fonte de O Monstro da Lagoa Negra (1954) e subverteu sua premissa básica. Desta vez, a humana se apaixona pela criatura. Sua ternura e compaixão para com o ‘homem-peixe’ fazem com que ele corresponda, passando a ser mútuo o afeto. A interpretação de Sally Hawkins é decisiva para que compremos a ideia, e eu diria que ela de fato mergulha na personagem (!). Hawkins é magnânima a ponto de, vivendo uma mulher muda, conseguir ‘gritar’ em certo momento. É quando Eliza discute com seu vizinho, tentando convencê-lo a ajuda-la a libertar a criatura: “Ele não me vê como uma pessoa incompleta”, ela diz, por meio de sinais. Sua agitação e desespero motivados pelo amor que sente pelo ‘homem-anfíbio’ são comoventes. A despeito das incompatibilidades sociais e comportamentais que implicariam um relacionamento entre duas espécies distintas (mas não tão diferentes), a genialidade do diretor está justamente em mostrar isso com tamanha sensibilidade a ponto de convencer o expectador de que tal sentimento é perfeitamente possível. Ora, e por que não seria?

Alegorias como essa dão à A Forma da Água um subtexto muito maior do que aparenta, entrando em questões raciais, sociais, religiosas e políticas que cabem como uma luva no atual cenário cinematográfico mundial, ávido por discuti-las. Contudo (e ainda bem), o engajamento de Guillermo termina onde começa a sua consciência de que, afinal, ele tem em mãos um produto também destinado ao consumo, ao entretenimento, à diversão. E muitos diálogos, principalmente os proferidos por Octavia Spencer, são mesmo hilários! Como já fez em produções anteriores – principalmente em O Labirinto do Fauno (2006) que até então era sua obra-prima – del Toro transmite a sua mensagem, dá o seu recado e ainda consegue que seu filme percorra os caminhos da cultura pop e seja acessível a (quase) todos. Salvo uma poça de sangue aqui, uns dedos decepados ali, um ataque instintivo acolá (pobre gatinho…) e algumas cenas literalmente molhadas de nudez e de sexo, A Forma da Água seria uma fábula para toda a família… Seria. Mas, se fosse, seu diretor não seria del Toro! Com este valoroso longa, o cineasta versa, acima de tudo, sobre as diferenças, idealizando uma criatura que pode muito bem figurar na mesma galeria onde se encontram ícones que atravessam gerações, como a criatura de Frankenstein, Corcunda de Notre Dame, Edward Mãos de Tesoura e até mesmo o Hulk, entre tantos outros.

A belíssima paleta esverdeada que toma conta de praticamente toda a projeção, o caprichado design de produção, ora desbotado, no prédio onde moram Eliza e Giles, ora antigo, no laboratório militar, a já citada inspiradora trilha sonora, o estupendo trabalho de maquiagem (somado a discretos retoques digitais) realizado para a concepção visual da criatura, que traz por trás da máscara o louvável Doug Jones em sua sexta colaboração com o cineasta (e que merece um maior reconhecimento da indústria) e o elenco inspirado corroboram para que A Forma da Água se estabeleça como um dos grandes filmes do nosso tempo.

O longa de del Toro é o grande campeão de indicações ao Oscar deste ano. Concorre em 13 categorias, entre elas Melhor Filme, Diretor e Atriz (e quero ter o prazer de atualizar esta crítica no dia 05 de Março). No Festival de Veneza já fez bonito e levou o Leão de Ouro. Também está tendo ótimo desempenho em outras premiações. A tão conservadora Academia se renderá à nova fabula sinistra concebida por este monstro sagrado da direção? Independentemente do resultado no Oscar, A Forma da Água, sem dúvida, é uma das obras mais inspiradas da carreira do talentosíssimo Guillermo del Toro, além, é claro, de conseguir unir, com uma genialidade sem igual, o mórbido e o lúdico.

A Forma da Água (The Shape of Water). EUA, 2017, 2h 03min. Direção: Guillermo del Toro. Com: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones. Romance/Fantasia. Fox.

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