Blade Runner – O Caçador de Andróides é um dos maiores exemplos (senão o maior) de filme ignorado à época de seu lançamento, mas reavaliado anos depois, tendo sua situação revertida a ponto de ganhar o status de cult movie. Em 1982, com as plateias do mundo inteiro encantadas pela maravilhosa ficção científica juvenil E.T. – O Extraterrestre, de Steven Spielberg, todos os lançamentos dos meses seguintes não tiveram a menor chance. Não foi diferente com aquele pretensioso e filosófico sci-fi lançado nos EUA apenas duas semanas após o arrasa-quarteirão spilbergiano, ainda mais por ter se mostrado um filme chuvoso, melancólico e deprimente, totalmente dissonante da ‘alegria’ reinante na época. Não bastasse o fracasso retumbante de público, aquele longa-metragem gélido mostrando um futuro distópico ainda foi execrado sem piedade pela crítica, que não se encantou com seu visual futurista noir, nem conseguiu enxergar nas entrelinhas do roteiro questões profundas envolvendo a sociedade contemporânea, metaforizada pela busca dos replicantes por seu criador para obterem o prolongamento de suas vidas.

O longa, dirigido por um jovem e promissor cineasta britânico, um tal de Ridley Scott (que três anos antes havia inaugurado um novo subgênero no cinema, o terror espacial, com Alien – O Oitavo Passageiro, esse sim, cultuado desde seu lançamento), e protagonizado pelo então astro do momento e em plena ascensão, Harrison Ford, decepcionou as plateias da época, em boa parte pelo seu ritmo consideravelmente lento, que prezava mais pelas divagações e insinuações existencialistas de seus personagens, em detrimento das sequências de ação. Foram justamente esses fatores subjetivos, somados à já citada ambientação, os itens decisivos para uma redescoberta da produção, principalmente com a massificação do mercado de home vídeo, em VHS. Menos de dez anos após seu lançamento, as mais prestigiadas publicações cinematográficas do mundo passaram a incluí-lo em suas listas de melhores filmes da década de 1980, da ficção científica e, por fim, de toda a história do cinema, estabelecendo-o como um clássico!

Após vários cortes diferentes do longa terem sido lançados, com cenas adicionadas ou suprimidas, Ridley Scott parecia ter colocado um ponto final na história com a sua versão definitiva: a The Final Cut, lançada em DVD em 2007, comemorando os 25 anos da obra original. Contudo, aqui estamos, dez anos depois, diante do novíssimo Blade Runner 2049, e uma das perguntas mais relevantes a ser feita em relação a essa nova empreitada é: estamos diante de um novo clássico? Senão, vejamos. Scott desta vez voltou apenas como produtor, para alívio de muitos que acreditam que o veterano cineasta já não tenha mais o jeito pra coisa. Para ocupar a cadeira de diretor foi contratado o atualmente celebradíssimo Denis Villeneuve, considerado um dos mais novos gênios do cinema, vide seu impecável histórico até então, mais evidenciado por sua obra anterior, A Chegada (2016), outro sci-fi com vibe intelectual, que rendeu os mais louváveis elogios ao jovem cineasta canadense. Somando-se à firme direção está o roteiro, escrito por Michael Green e Hampton Fancher (este último também foi co-roteirista do longa original, ao lado de David Peoples), que não apenas revive com extrema perfeição toda aquela atmosfera contemplativa idealizada por Scott há 35 anos – e trazendo novos personagens que remetem àqueles – como também a atualiza (a história desta vez se passa 30 anos após os eventos do original), além, é claro, de trazer novas inquietações acerca do que torna alguém um ser verdadeiramente humano, desenvolvendo e aprofundado ainda mais os conceitos do livro Do Androids Dream of Eletric Sheep? (Andróides Sonham Com Ovelhas Elétricas?), lançado em 1968 por Philip K. Dick (um dos mais importantes escritores de ficção científica de que se tem notícia), e que inspirou o filme de 1982.

Roteiro do qual é melhor não se saber nada, NADA, antes de ver o longa, pois o primeiro spoiler surge já nos minutos iniciais da projeção – desafiando o expectador a tentar adivinhar, a partir dali, quem é quem – e assim se mantêm a narrativa, em uma sucessão de perguntas, dúvidas, suspeitas e, por fim, revelações capazes de balançar as estruturas daquele cinéfilo que tantos anos esperou para ver na telona o sonho realizado da continuação de um filme (hoje em dia) tão querido. Este é o momento ideal para dizer que Blade Runner 2049, ao contrário do que a campanha de marketing nos fez pensar, não é necessariamente uma produção que deverá agradar às grandes massas. Se estão de volta aquela chuva intermitente e aqueles vapores insistentes que continuam a assolar as ruas cinzentas dessa Los Angeles ao mesmo tempo futurista e decadente (com suas sofisticadas propagandas virtuais retrô), a melancolia também voltou, salientada por uma narrativa com ritmo muito similar ao do original, com longos (e belíssimos) planos contemplativos, uma sucessão de diálogos intrigantes e muitos closes, principalmente do protagonista. Blade Runner em sua mais pura essência, para deleite dos fãs, e provavelmente estranheza dos que ainda não foram introduzidos a este universo, que traça um retrato tão triste e pessimista da humanidade, e ainda assim tão belo e poético, podendo até comover os mais imersos na trama! É preciso ‘entrar no clima’ para apreciar.

Não haveria nada demais nas dúzias de closes em Ryan Gosling que permeiam toda a projeção, não fosse por um inusitado detalhe, que a princípio tem menos a ver com sua interpretação e mais com sua fisionomia: mesmo atuando de forma propositalmente fria, a impressão que dá é a de que ele está querendo rir (sério!). Ele não tem culpa de ter o rosto que tem, mas esse aspecto ‘risonho enrustido’ que se mantem em sua face durante todo o longa – ainda mais pela memória recente que temos de sua atuação em La La Land – pode levar alguns a se perguntarem se ele foi a escolha mais apropriada para viver o agente K. Quase todos os demais integrantes do elenco, conforme seus papéis, sejam eles humanos, replicantes ou ‘outra tecnologia’ (passamos raspando por mais um spoiler) também seguem à risca a mesma cartilha que preza por aquela seriedade solene adotada pelos personagens do longa original, com expressões tão gélidas quanto a de Rachael (Sean Young), a lindíssima replicante que vimos fugindo com Deckard (Harrison Ford) ao final daquele filme, rumo a um destino desconhecido… Lamentavelmente, e novamente por conta da divulgação que nos sugeriu o contrário, alguns nomes de peso do elenco têm um tempo de cena muito menor do que o imaginado. Contudo, mediante o desempenho nas bilheterias, a continuidade desta história (que deixa brechas para isso) pode vir a se concretizar, o que permitiria um destaque maior a determinados personagens que, afinal, têm potencial, vide os nomes envolvidos.

Desde que haja, portanto, uma dose de cumplicidade por parte do expectador, este novo Blade Runner consegue, com a soma de seu elenco – mesmo distribuído desproporcionalmente – e de sua equipe, restabelecer aquele universo sombrio, precursor de inúmeras ambientações pós-apocalípticas às quais estamos tão acostumados a ver hoje em dia, não apenas no cinema, mas nos mais diversos produtos da cultura pop. Toda essa sensacional concepção visual que o novo filme traz, além de garantir uma imersão completa à Los Angeles de 2049 (introduzindo também outros cenários igualmente fantásticos), ainda torna verossímil a apresentação de alguns conceitos curiosos, como… um inovador sexo a três como você nunca viu! Calma, não precisa se escandalizar, pois a referida cena é mostrada com muita classe.

Com a realidade virtual e a inteligência artificial avançando a passos largos em nossa sociedade, muito do que se vê no longa, além de espelhar tendências, também remete à obras cujos questionamentos são igualmente pertinentes à discussão acerca da ética na utilização dessas novas tecnologias, bem como da ‘humanidade’ das máquinas, como Ela (2013) e Ex Machina (2015), entre tantos outros bons exemplos. Por fim, os impactantes acordes de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, embora tenham vida própria, em certos momentos emulam os clássicos temas com os quais o grego Vangelis musicou o longa original, tendo criado com seus sintetizadores uma das trilhas sonoras mais famosas do cinema, à altura da categoria de clássico que o filme alcançou no decorrer dos anos. O que nos traz de volta à pergunta do terceiro parágrafo: Blade Runner 2049 é o mais novo clássico da ficção científica? Só o tempo dirá. Até lá, plateias do mundo inteiro irão se comover, ou não, com essas novas lágrimas na chuva.

Blade Runner 2049. EUA, 2017, 2h 32min. Direção: Denis Villeneuve. Com: Ryan Gosling, Harrison Ford, Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Robin Wright, Jared Leto, Mackenzie Davis, Carla Juri, Dave Bautista, David Dastmalchian, Barkhad Abdi, Edward James Olmos. Ficção Científica. Columbia/Warner.

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