Falar sobre racismo no cinema não é novidade. Filmes como “12 anos de Escravidão”, entre outros que retratam o período da escravidão no Estados Unidos são quase uma norma no cinema americano e suas premiações. Outros, como “Histórias Cruzadas” e “O modormo na casa branca” abordam o tema em períodos atuais, mostrando a perspectiva dos protagonistas em contato com uma sociedade (quase sempre) racista.

 Nesse sentido, Corra! se destaca pela abordagem de terror/suspense que dá ao racismo. Como, em tantos anos, ninguém nunca pensou em fazer um filme de terror sobre o racismo?

A história começa quando Chris, um jovem negro, vai conhecer os pais da namorada branca. Chegando lá, o protagonista começa a se sentir cada vez mais inquieto. O motivo seria somente o racismo velado dos pais e irmãos de Rose? Ou haveria algo mais?

A primeira parte do filme é capaz de deixar qualquer espectador tenso. Não que tenha sustos ou monstros mas, seja por não saber exatamente o que está acontecendo, seja pela direção competente de Jordan Peele, que cria toda uma tensão a trama, o fato é que é impossível assistir aos diálogos aparentemente inócuos entre os pais de Rose e Chris sem sentir que tem algo que não nos foi contado e que algo de muito ruim está para acontecer. O segundo ato é interessante e também surpreendente. O tema do filme finalmente se revela – e surpreende. O destaque aqui são as atuações, principalmente de Daniel Kaluuya.

Quando se observa o filme como um todo é interessante perceber o quão real parece a história, mesmo com todas as situações afetadas e exageradas afim de deixar a trama assustadora. O filme quase beira a ficção científica ao tratar do controle da mente mas é muito realista quando trata do racismo. Seja nas formas mais inócuas (você joga basquete?) até as mais institucionalizadas, como nas cenas que envolvem o contato de Chris com uma autoridade policial, o racismo é dolorosamente realista. Mérito de Jordan Peele, que também é roteirista de “Corra!”.

Todo esse contexto pesado do filme é aliviado por algumas cenas de humor protagonizadas por Rod, o amigo para quem Chris liga para contar o que está acontecendo na casa. Essa quebra na tensão é fundamental para que não se torne um filme dificil de assistir e também ajuda a Chris a externar de alguma forma seus pensamentos, já que não há muitas pessoas com quem ele pode conversar naquela casa.

Muito criticado por ser fraco e previsível, o terceiro ato foi um dos momentos que mais gostei. Talvez tivesse sido mais interessante, do ponto de vista cinematográfico, que o desfecho fosse diferente mas, como espectadora, esse final me agradou demais. Não quero dar spoilers mas minha vontade foi aplaudir o desfecho do filme quando o vi no cinema

Indico “Corra!” para os que gostam de bons filmes, com bom andamento e muitas camadas. É um dos meus favoritos desse Oscar 2018 – nota 9 (muito bom).

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