A emoção de finalmente ver na tela do cinema, pela primeira vez em seu próprio filme, e de forma tão maravilhosa, a maior e mais famosa super-heroína da História, quase 76 anos após ter sido criada nos quadrinhos, é comparável ao entusiasmo que o público de 1978 sentiu ao conferir, também na telona, o primeiro longa-metragem de grande orçamento dedicado a um super-herói, não por acaso, talvez o maior de todos eles, e publicado pela mesma editora, o Superman dirigido pelo então promissor Richard Donner e protagonizado de maneira insuperável pelo inesquecível Christopher Reeve.

É mais do que justa, portanto, a homenagem feita por este filme àquele que, há quase quarenta anos, fez o mundo inteiro “acreditar” que um homem podia voar. Enquanto que lá Clark Kent salvou Lois Lane de um tiro à queima-roupa durante um assalto em um beco de Metrópolis retendo a bala com a mão, aqui a mais nova “secretária” do espião britânico Steve Trevor, elegantemente trajada, o que inclui um belo chapéu e um par de óculos complementando seu discreto figurino, ricocheteia com os seus braceletes as balas vindas de várias direções, proferidas pelos revólveres de agentes alemães que, de semelhante modo, também os havia encurralado em um beco escuro da cinzenta Londres de 1918, ano em que se passa a história.

Antes, porém, de pisar em solo londrino, acompanhamos o treinamento da jovem Princesa Diana, filha da Rainha Hipólita (Connie Nielsen), e sobrinha de Antíope (Robin Wright), a líder do exército de amazonas, na paradisíaca ilha mística de Themyscira (com belíssimas locações filmadas no Sul da Itália), um lugar escondido do mundo exterior, onde as amazonas vivem em paz. Até que um dia, inexplicavelmente, Trevor (Chris Pine) acaba caindo nas águas próximas à praia, sendo salvo por Diana e, de forma involuntária, colocando as guerreiras a par da “maior de todas as guerras” que está assolando o planeta. O que faz a idealista Diana (que ainda não tem total conhecimento de suas habilidades) acreditar que Ares, o Deus da Guerra, de quem tanto ouviu falar desde a infância, seja o maior influenciador do conflito. Decidida a enfrenta-lo, ela parte, guiada por Steve, com apenas uma ideia fixa na mente, chegar ao campo de batalha, encontrar e derrotar o lendário inimigo da paz universal.

Os momentos de interação de Diana com Trevor, seus três amigos e sua secretária Etta Candy (Lucy Davis, cujo “enchimento” da maquiagem a deixou irreconhecível), bem como as passagens que mostram a adaptação da jovem e ingênua amazona ao nosso mundo – seu encantamento ao ver um bebê ou ao conhecer a neve é tocante – são os mais leves e descontraídos do filme, recheados de um humor saudável, inocente, que traz ao longa certa nostalgia perdida em algum ponto dos anos 1980, em que ríamos espontaneamente de situações divertidas colocadas naqueles filmes de ação e aventura que tantas vezes assistíamos e que hoje guardamos com carinho na memória. É algo bem diferente de despejar gags à revelia querendo que o espectador ria a todo instante. Além disso, neste longa, em meio ao riso há sempre mensagens implícitas que envolvem discussões acerca do papel da mulher na sociedade moderna ou ainda a eterna disputa dos sexos, tudo sempre com muita diplomacia, sem jamais apelar para a sensualidade. É o momento ideal para reforçar que a primeira superprodução do cinema protagonizada por uma super-heroína, também não por acaso, tenha sido dirigida por uma mulher, louvável decisão que fez toda a diferença, com o projeto ganhando novos contornos.

Patty Jenkins ganhou projeção ao dirigir Monster – Desejo Assassino (2003), que apesar de possuir esse título que remete a uma obra de terror, na verdade, é um drama, e traz à frente do elenco Charlize Theron, que teve seu visual completamente desglamourizado pela maquiagem, e acabou ganhando o Oscar de Melhor Atriz. Ninguém melhor do que uma mulher para entender da “alma” feminina e isso é claramente perceptível na forma com que Jenkins conduz este filme protagonizado por Gal Gadot. A ex-modelo israelense, outrora taxada de esguia demais para viver a personagem-título, hoje se mostra a escolha perfeita, esbanjando todo o seu carisma ao viver o papel da amazona que nos conquista com seus princípios (a maneira como se compadece das vítimas da guerra é sublime) e com sua dócil inocência, após ter dado o ar da graça, muito mais experiente e desiludida da humanidade, em Batman Vs Superman, filme que marcou o seu muitíssimo bem sucedido batismo de fogo no cinema.

A personagem de Gal é uma guerreira, mas em nenhum momento ela deixa de lado a feminilidade, a suavidade, até mesmo nas sequências de ação (embaladas por aqueles acordes de guitarras que hipnotizaram o público em BVS), que privilegiam muito mais a sua movimentação em campo – com direito a câmeras lentas “Snyderyanas” – do que a força bruta, embora ela também a tenha, e muita.  Seus saltos são verdadeiros voos, magnificamente coreografados (apesar de haver instantes em que o CGI fique evidente). A espada, o escudo, os braceletes e o laço são utilizados por ela de uma maneira que denote, ao mesmo tempo, firmeza e leveza, confiabilidade e graciosidade.

A pouca atenção dada pelo roteiro aos vilões é compreensível, visto que esta é a história de Diana, contada de maneira até simplória, bem linear, em meio ao desolado cenário da Primeira Guerra Mundial, em um interessante contraste com as cores vivas de sua ilha natal. É a jornada de uma mulher muito especial que acredita, inocentemente, que pode derrotar o “senhor da guerra” e, com isso, trazer a paz ao mundo, simples assim. A forma como Jenkins trouxe essa história até nós é que faz toda a diferença. Algumas incoerências no roteiro aqui e ali são perdoáveis, e não comprometem o produto final. A trama ainda reserva espaço para um plot twist interessante, durante o caos instaurado no turbinado terceiro ato, preenchido também por heroicas atitudes que inevitavelmente provocam fortes emoções. Em tempos de universos compartilhados, é deliciosa a sensação de podermos apreciar uma história “fechada”, de origem, à moda antiga. Nossa empolgação, contudo, só aumenta ao termos a plena consciência de que a heroína não só faz parte do DCEU (e três momentos específicos do filme nos lembram disso) como aparecerá novamente na telona ainda este ano, no mais aguardado ainda filme da Liga da Justiça.

Curiosamente, o “nome de guerra” da super-heroína nunca é mencionado no filme, como também aconteceu nesta crítica até agora. Com essa opção criativa, o longa reconhece a imensa popularidade da personagem, pois é mesmo difícil encontrar quem nunca tenha ouvido falar dela. A enorme importância desta produção está comprovada, a indústria cultural ganha um novo patamar, com o seu sucesso incontestável de público e, sim senhor, de crítica. Em meio a tanta gente competente que tornou este filme realidade, agora falo como fã e faço um agradecimento especial: Gal, tu és maravilhosa. Assim como fez o outrora Superman de Christopher Reeve, a sua personificação de Diana é uma das maiores dádivas já concedidas pelo cinema aos fãs de super-heróis de histórias em quadrinhos. Obrigado por ser a nossa Mulher-Maravilha!

Mulher-Maravilha (Wonder Woman). EUA, 2017, 2h 21min. Direção: Patty Jenkins. Com: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, David Thewlis, Danny Huston, Elena Anaya, Lucy Davis. Aventura/Fantasia. Warner.

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