(Não, apesar do título, esta crítica NÃO contem spoilers!)

Agatha Christie, esse nome figura na galeria de escritores mais lidos do mundo. Desde 1920 até depois de sua morte, em 1976, mais de 80 livros escritos pela autora já foram lançados, entre romances policiais e coletâneas de contos investigativos. O conjunto de sua obra já teria contabilizado algo em torno de quatro bilhões de cópias vendidas em todo o planeta. Assassinato no Expresso do Oriente, publicado em 1934, seguramente é uma de suas obras mais conhecidas, inclusive já tendo rendido uma adaptação para o cinema em 1974, sob a direção de Sidney Lumet, e com vários astros da época reunidos, entre eles, Sean Connery, o primeiro 007. Indicado a seis Oscars, o filme ganhou o de Melhor Atriz Coadjuvante para Ingrid Bergman. Essa primeira, e bem-sucedida, versão cinematográfica do livro de Agatha que se passa em um trem emperrado na neve deixou a escritora britânica satisfeita, exceto pelo bigode de seu protagonista, o detetive belga Hercule Poirot (então vivido por Albert Finney), que teria ficado aquém do que ela descreveu para o personagem. Já que o assunto bigode está em evidência em Hollywood, o ostentado por Kenneth Branagth na nova versão que acaba de chegar aos cinemas, sem dúvida nenhuma deixaria a escritora orgulhosa, além do que seria imbatível na conquista do Oscar, caso existisse a categoria de Melhor Bigode!

O roteiro se mantém fiel à premissa básica do livro, em que Poirot se vê diante de um misterioso assassinato ocorrido a bordo do referido Expresso do Oriente. Após o crime, todos os passageiros, imediatamente, passam a ser vistos como suspeitos. As investigações e as deduções do detetive perfeccionista e obstinado deverão chegar à conclusão de que o assassino, na verdade, é…

Assim como aconteceu no longa de 1974, um dos grandes atrativos desta nova versão é poder ver tantos astros juntos em cena. De Johnny Depp à Michelle Pfeiffer, passando por Judi Dench (a M dos recentes filmes de 007), Willem Dafoe (que já foi Marvel e agora é DC!) e a queridinha do momento, Daisy Ridley, mostrando toda a força de seu carisma. Quanto ao protagonista, sua presunção, vaidade, sotaque e, claro, talentos investigativos são corretamente encarnados por Branagh, que também acumulou a função de diretor, como é de costume em várias de suas produções, em que trabalha na frente e por trás das câmeras.

Branagh (que em 2011 dirigiu Thor) desta vez se mostrou mais competente na condução do projeto, que tem mais a ver com sua filmografia. Algumas das criativas angulações, movimentações de câmera e planos-sequência que adotou para este longa, além de serem interessantes caprichos visuais, também remetem a outro entendido no assunto, em se tratando de suspense, o cineasta Brian De Palma. A Última Ceia, famosíssima pintura renascentista de Leonardo da Vinci, é outra curiosa referência que se faz notar em dado momento. Por fim, o cuidado com os atributos técnicos, somados ao brilhante elenco e, é claro, à surpreendente história de crime e mistério engendrada por Agatha Christie mais de 80 anos atrás, fazem desta modernização da obra da cultuada escritora uma ótima opção para quem gosta de assistir a um filme no qual se faz necessário prestar atenção a todos os detalhes e tentar descobrir, junto com o protagonista (ou quem sabe até antes dele), quem, afinal, é o assassino.

Hercule Poirot apareceu em mais de 40 livros de Christie. Na literatura, esse meticuloso detetive dedutivo rivaliza em fama com Sherlock Holmes, embora a criação de Sir Arthur Conan Doyle seja muito mais conhecida pelas novas gerações por conta de suas recentes versões no cinema e na TV. Mas este novo Assassinato no Expresso do Oriente é uma obra comercialmente pretensiosa, trazendo com ela (além de um generoso gancho) o desejo de se tornar o primeiro episódio de uma franquia. Seu desempenho nas bilheterias, portanto, será determinante (como sempre) para o estúdio dar o sinal verde às futuras aventuras investigativas de Poirot. Quem sabe até lá a Academia já tenha criado a categoria de Melhor Bigode…

Assassinato no Expresso do Oriente (Murder On The Orient Express). EUA, 2017, 1h 54min. Direção: Kenneth Branagh. Com: Kenneth Branagh, Michelle Pfeiffer, Daisy Ridley, Penélope Cruz, Judi Dench, Derek Jacobi, Willem Dafoe, Johnny Depp, Josh Gad, Tom Bateman. Suspense. Fox.

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