Eu, Tonya é um filme brilhante e que entretêm verdadeiramente o espectador com um roteiro prazeroso e Margot Robbie em um papel que, finalmente, lhe dá possibilidades de mostrar todo seu talento

 

  Como nasce o amor? Desde a antiguidade é possível encontrar reflexões e obras que buscam responder esta pergunta. O psicólogo e filósofo Erich Fromm propõe que o amor não é espontâneo, ele precisa ser aprendido. O amor precisa ser estudado, compreendido e treinado pois, como o próprio Fromm declara, é uma arte. “Se quisermos aprender como se ama, devemos proceder do mesmo modo que agiríamos se quiséssemos aprender qualquer outra arte, seja a música, a pintura, a carpintaria, ou a arte da medicina ou da engenharia“. Dirigido por Craig Gillespie (Horas Decisivas, o remake de A Hora do Espanto) e escrito por Steven Rogers (P.S. Eu Te Amo, Kate & Leopold), o longa Eu, Tonya busca dar a sua definição não só sobre o amor, mas sobre diversos temas que acabam conversando com Fromm, como ego, sucesso e fracasso, a influência familiar na construção do indivíduo, o narcisismo, o papel da cultura, da mídia e do esporte na construção da sociedade.

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  Gillespie, que tem em seu currículo filmes dinâmicos e repletos de acontecimentos, e Rogers, um escritor de comédias românticas, aproveitam de suas experiências para contar o furacão de emoções que é a vida de Tonya Harding (Margot Robbie), patinadora artística americana que coleciona conquistas e polêmicas. Caso você não conheça Tonya, antes de assistir o filme recomenda-se não procurar nada da vida da atleta para que o filme e a gama do roteiro sejam ainda mais prazerosos. O maior mérito do filme está na forma que busca contar sua história. Utilizando os personagens centrais, conhecemos a trama com narração e pontos de vista diferentes. Durante os primeiros minutos de Eu, Tonya os depoimentos dos personagens, gravados em formato 4:3 (o famoso formato quadrado das antigas tvs de tubo), cortam, narram e comentam a trajetória principal. Isso traz ambiguidade para o filme, mas não total, pois é clara a verdade que deseja ressaltar em tela. Há um desajuste na narrativa que pode causar uma sensação desconfortável no público, porém, esse incômodo é rapidamente contornado quando são inseridas pequenas quebras de quarta parede. A partir disto, o público se aproxima mais da história e fica aberto para comprar qualquer tipo de modificação na estrutura da narrativa. O filme se evidencia como filme e obra de ficção para ressaltar os absurdos da realidade e dos fatos, que realmente aconteceram.

Margot Robbie, que também é produtora do filme, mostra as diversas faces e fases de Tonya Harding com realidade e sensibilidade.

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  O filme aproveita sua fotografia, edição e montagem competentes, que agem em conjunto para construir suas nuances. O humor, negro na maior parte das vezes, é muito bem explorado. A tensão e o suspense conseguem deixar o espectador imerso, principalmente nas cenas que retratam as competições de patinação artística. Nestas, em específico, a câmera e os falsos planos sequências colocam o espectador direto na ação, que só não consegue se conectar quando o CGI, muito aparente em alguns momentos, quebra a suspensão de descrença. Outro aspecto técnico que oscila é a Maquiagem. Apesar de ter qualidade, a maquiagem acaba sendo inconsistente e entregando resultados pouco credíveis, como ao retratar Tonya em sua fase adolescente ou as diferentes idades de Jeff Gillooly (Sebastian Stan). Tudo isso é embalado por músicas que refletem não só a época e o passar dos anos mas também a emoção e mundo interior dos personagens.

Allison Janney entrega uma atuação digna de Oscar. Não é força de expressão: o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante já está praticamente nas mãos de Janney.

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  Margot Robbie finalmente consegue um papel justo que a permite usar todo seu potencial. A atriz consegue dar o peso necessário para cada idade de Tonya Harding, que é repleta de sentimentos e temperamentos diferentes nestes vários momentos de sua vida. A atriz tem muita expressão facial e gestual, que mimetizam os registros das competições de Tonya e vão além. De fato, Robbie constrói sua personagem como se estivesse patinando no gelo: deslizante, graciosa, vacilante, sempre na iminência da queda e da precipitação. Allison Janney, que interpreta LaVona Fay Golden, consegue dar profundidade e complexidade para uma personagem que, de tão absurda e teatral, não parece ser uma pessoa real. Janney constrói de maneira sutil, fria e ambígua o amor bruto da mãe de Tonya e está ótima no papel que, certamente, trará seu oscar de atriz coadjuvante. Sebastian Stan também entrega um personagem interessante, mas o tom da versão mais madura de Jeff parece não ter sido encontrado, enquanto que Shawn Eckhardt, vivido por Paul Walter Hauser, merece uma atenção especial.

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  A imperfeição da condução do filme conversa e faz juz aos seus personagens. Todos são disfuncionais nesta história. Vieram de famílias disfuncionais e têm concepções disfuncionais sobre o amor. Tonya, que está debaixo do holofote principal na narrativa, busca o propósito e o amor que nunca encontrou no esporte, na virtuose e no sucesso. Vivendo também em uma sociedade disfuncional (não exclusivamente americana, mas universal), Tonya acaba recebendo o amor bruto e ódio puro que a humanidade tem para oferecer. O próprio Erich Fromm defende que o amor está no erguimento, e não na queda, e que “a principal missão do homem é dar luz a si mesmo e tornar-se aquilo que ele é potencialmente“. Se tem uma coisa que é possível aprender com Robbie e Harding em Eu, Tonya é a força de uma mulher que não teve medo de se levantar quantas vezes fossem necessárias para viver (e amar) com liberdade e dignidade.

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Enfim…

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Eu, Tonya é um filme original, vibrante, imperdível e que sabe construir muito bem sua comicidade e seu drama. Usando da história real da patinadora Tonya Harding para abordar inúmeros temas, o longa conta com um roteiro ágil e genial, que em momentos perde força devido a uma condução que se confunde. Com ótimas atuações de Margot Robbie e Allison Janney Eu, Tonya é um filme que fará o público pensar e se entreter verdadeiramente. Assim como com a própria Tonya Harding, o filme parece não ter o merecido reconhecimento e sua falta de convencionalidade e imperfeições tiraram seu destaque nas premiações. Mesmo assim, Eu, Tonya é um atípico filme bibliográfico que merece ser assistido e que merece justiça. A mesma justiça que parece ter sido negada á sua protagonista e que, mais de duas décadas depois, tem a chance de mostrar a sua verdade.

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