O cineasta norte-americano George A. Romero morreu na noite deste domingo (16), acompanhado por sua esposa e filha e na mesma cidade onde nasceu, Nova York. Ele estava com 77 anos e foi vítima de um câncer de pulmão.

O maior legado deixado pelo diretor diz respeito aos filmes de zumbis, que em suas mãos receberam uma nova roupagem, ganhando uma seriedade e um clima de tensão e urgência jamais vistos até então, e influenciando diversos cineastas entusiastas do terror, como Sam Raimi, Robert Rodriguez e até mesmo Quentin Tarantino! Sua influencia na cultura pop continua notável até os dias de hoje, e em vários formatos. São filmes, séries, HQs, games, videoclipes… Difícil não lembrar de Thriller, o curta-metragem de 14 minutos lançado em 1983 por Michael Jackson. A Volta dos Mortos-Vivos, uma franquia trash iniciada em 1985 que rendeu cinco filmes, é uma bem-sucedida paródia ao mesmo tempo que também homenageia o mito. A Maldição dos Mortos-Vivos (1988), dirigido pelo igualmente saudoso Wes Craven (outro entendido do assunto), e um dos filmes mais angustiantes do gênero, semelhantemente exemplifica essa influencia. Guerra Mundial Z (2013), de Marc Forster, também bebe dessa fonte. Quanto à atual série que se tornou fenômeno pop The Walking Dead, talvez ela nem existisse não fosse A Noite dos Mortos-Vivos (tem no Youtube, viu!), o primeiro longa-metragem da carreira de Romero, filme independente, rodado em preto e branco e com um custo de 114 mil dólares (não 114 milhões, 114 mil mesmo!). O que faltava em orçamento e recursos sobrava em criatividade e genialidade. Esse longa, lançado em 1968, arrecadou em torno de 30 milhões de dólares ao redor do mundo. Mais do que isso, se tornou um cult movie, e redimensionou o conceito de zumbis dali por diante.

Romero era um artista e, como tal, não hesitava em sugerir discussões relevantes à sociedade em suas obras, tais como preconceito racial, diferenças entre classes, capitalismo e, é claro, o uso inconsequente da ciência em prol da guerra. Os zumbis surgem em seu primeiro filme por conta da queda de um satélite que espalha altas doses de radiação pelas imediações. O cineasta novaiorquino confirmou, em suas obras seguintes, sua preferência pelo terror, gênero que ajudou a moldar, praticamente criando um novo subgênero, os ‘filmes de zumbis’. Após o sucesso do primeiro, Romero repetiu a fórmula em 1978 com Despertar dos Mortos (em 2004 esse longa ganhou uma refilmagem que marcou a estreia de Zack Snider na direção) e Dia dos Mortos (1985), fechando uma espécie de trilogia inicial da franquia, com os três longas sendo igualmente cultuados pelos fãs. As novas gerações puderam conhecer melhor as ‘crias pavorosas’ do velho George em suas obras mais recentes Terra dos Mortos (2005), Diário dos Mortos (2007) e A Ilha dos Mortos (2009), que são uma mistura de continuação com reboot (algo que tem se tornado muito comum em Hollywood atualmente), sempre com orçamentos apertados, com exceção de Terra dos Mortos, orçado em quase 20 milhões de dólares e que faturou cerca de 47 milhões, em uma rara parceria com um grande estúdio, no caso, a Universal.

George Romero (a exemplo de um outro George em início de carreira) sempre preferiu ficar à margem do mainstream e, com isso, conceber seus filmes com liberdade, de forma quase artesanal, da maneira que quisesse. Entretanto, ao contrário do que parece, sua obra não se resume apenas a filmes de zumbis. No decorrer de mais de meio século de atividade, ele também flertou com outros subgêneros, embora sempre atrelados ao medo. Cavaleiros de Aço (1981), com Ed Harris, é sobre uma violenta gangue de motoqueiros que pensam que são Cavaleiros da Távola Redonda! Martin (1976) conta a história de um garoto que acredita que é um vampiro. Já o ótimo terror psicológico baseado em livro de Stephen King, A Metade Negra (1993), com Timothy Hutton (que na época era famoso) e Michael Rooker (dos dois Guardiões da Galáxia) mostra um escritor atormentado pelo seu próprio pseudônimo, que ganha vida! A parceria anterior de Romero com King é igualmente interessante, Creepshow (1982), filme que reúne cinco contos do escritor.

A obra de Sir George Andrew Romero, portanto, vai além dos influentes filmes com zumbis que realizou, e a soma de seus trabalhos seguramente o colocam em um lugar de destaque no panteão dos grandes cineastas desse gênero de extrema importância para o cinema mundial, o terror. Deixa ainda, como legado, além de suas imortais produções, a lição de que um baixo orçamento pode ser compensado com muito talento.

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