Bem vindo a Derry!

Como destruir algo que a encarnação dos pesadelos de cada pessoa? IT, livro escrito por Stephen King na década de 80, conta a história de 7 amigos que, um dia, 27 anos atrás, tentaram destruir essa “Coisa”. Muitos anos se passaram e todos seguiram com suas vidas, ficaram mais velhos, casaram-se. Uma noite, porém, todos recebem a mesma ligação: devem voltar a Derry. A Coisa havia retornado.

Dividido em cinco partes que se passam ora em 1957 ora em 1985 o livro esse calhamaço de 1100 páginas tem como trama principal a história desses amigos mas essa história é misturada com a história da própria cidade e dA Coisa, esse monstro que eles querem derrotar e que, a princípio, se apresenta como Pennywise. A razão pela qual eles retornam a cidade depois de tantos anos é uma nova onda de crimes e, em todos eles, a estranha presença de um palhaço (Pennywise).
Nesse primeiro tempo já há a alternância entre o passado e o presente dos personagens e, quando vi a parte da infância, foi impossível não lembrar de Stranger Things. Há algo nessa coisa de crianças saindo perseguindo monstros que me lembra essa série – o próprio King comentou parece concordar comigo nesse aspecto.
Como ocorre em O Iluminado, também de King, aqui o mal não está em pessoas ou em um contexto mas sim na própria Derry. Como no hotel Overlook, as coisas estranhas vem acontecendo nessa cidade há muito tempo e o mal parece ter se entranhado por ali desde a sua fundação. Não é só uma rua, não é só uma casa – toda a Derry parece estar amaldiçoada e corrompida e a razão tem tudo a ver com o palhaço Pennywise, com A Coisa.
A segunda parte do livro se concentra no início de verão de 57, mostrando como os 7 se conheceram e as coisas assustadoras que viram na época. Bill Gago, o líder do grupo, é um garoto triste que perdeu o irmãozinho de repente, uma história meio esquisita que destruiu a sua família e que ele não entende direito. Eddie é o amigo asmático de Bill e o vê como uma espécie de herói, alguém quem ele gostaria de ser mas que não pode, devido as doenças (reais ou imaginárias?) que sua mãe diz que ele tem. Richie, o boca de lixo, é irreverente, bem humorado e chega a perder a mão algumas vezes, por sempre querer fazer piada de tudo e de todos (sem filtros).

fonte: Devian Art

Há também Ben, um menino gordo e sozinho, que encontra com Eddie e Bill por acaso, quando estava fugindo de meninos chamados Henry, Arroto e Victor pelo local conhecido como Barrens (uma espécie de matagal de Derry, onde se passa boa parte da história). A partir daí Ben também faz parte do grupo, conhece Richie e Stan, um judeu quietinho e um tanto misterioso. Bev também se junta ao grupo na segunda parte, uma menina linda, excluída pelas outras garotas da sua idade por morar na parte pobre da cidade. Todos os meninos são um tanto apaixonados por Beverly (Ben mais do que todos) mas, naquele verão, Bervely se apaixona totalmente por Bill.
Para fechar o círculo dos sete há Mike, praticamente o único garoto negro que vive na cidade. Mike só se junta ao grupo na parte 4, durante a “apocalíptica guerra de pedras”, uma das minhas cenas favoritas do livro. É só após a chegada de Mike que os amigos, naquele verão anos atrás, decidem perseguir A Coisa. Também é Mike que, anos depois, faz as ligações para que todos retornem a Derry.
Não li muitos livros do Stephen King mas, todos que li tem algumas coisas em comum, como o toque de inacreditável que sempre permeia a suas histórias. Há sempre uma situação meio absurda nos livros de King que me faz ter que me esforçar para continuar levando a história a sério. Em IT esse momento foi quando Bill e Richie visitam uma casa abandonada; como levar a sério um monstro que espirra com pó de mico? O desenrolar a história dá um sentido a essa cena meio infantil mas, como uma pessoa que já leu uma história de King sobre uma máquina de passar assassina, posso afirmar que esses momentos bizarros e estranhos são a cara dele.
O segundo elemento/assinatura do autor que reconheço nessa obra e nas outras dele que li é que, por mais que sejam histórias de medo e horror, há sempre algum elemento de tristeza, pesar ou melancolia na trama. Ler Stephen King para mim é sempre uma mistura de ficar com medo, tentar superar algumas passagens e me emocionar em outras. Tem algo triste nesse autor e isso me toca profundamente – não é a toa que comecei e terminei esse livro com lágrimas nos olhos.
Na terceira parte, quando a narrativa foca em adultos, tanto os personagens quanto a trama perdem a força. Há algo na figura dA Coisa só funciona quando há nela um olhar de criança – com os personagens adultos, Pennywise ficou sem graça e repetitivo. Além disso, não dá para ter medo de um monstro que você vê toda hora, e vemos muitas cenas do monstro nessas mil e poucas páginas.FONTE: Pinterest

Só na última parte do livro é que conhecemos os desfechos: tanto 27 anos atrás quanto no presente o grupo vai até as profundezas de Derry para realizar o ritual Chüd.
Nesse momento vemos que “A Coisa” é uma espécie de mal encarnado, que se alimenta das crianças literal e metaforicamente, já que também se alimenta da fé que elas tem de que os monstros são reais. Porém há um dualismo nessa fé: se as crianças acreditam que um lobisomem existe, elas também acreditam que a bala de prata pode matá-lo. Por isso é que só crianças podem derrotar “A Coisa” e os personagens principais, já adultos, tem que lidar com essa realidade e voltar a ser um pouco crianças se quiserem sair desse confronto com vida.
Não quero dar Spoiler nesse final e ainda estou refletindo sobre tudo o que esse livro me causou. Há certamente muitos pontos positivos e que dialogaram comigo: no fundo é uma história sobre o bem e o mal, sobre amor, amizade e infância. Há também aquela nostalgia melancólica das histórias do autor, aquela sensação de que as coisas jamais serão como antes. Isso é triste mas também é muito bonito.
Por trás desse desfecho porém há uma história muito irregular. King parece ter a necessidade de dar um nome e uma história para cada pessoa que já pisou em Derry e, embora isso possa ser interessante para dar realismo a trama, no final acaba ficando um pouco cansativo. Além disso, ao mesmo tempo em que há cenas emocionantes, assustadoras e incríveis, há situações que eu simplesmente não posso acreditar que estão ali. Sério, qual a necessidade daquela cena entre Beverly e os meninos no meio dos esgotos de Derry há 27 anos?
Apesar disso, ainda vejo IT como uma história sobre a infância e a amizade e, tirando a ressalva do parágrafo anterior, cada um dos momentos entre Bill, Ben, Richie, Eddie, Beverly, Mike e Stan demonstra o afeto que os une. Ao longo de dois meses de leitura os personagens acabaram se tornando meus amigos também e foi difícil dizer adeus a eles na última página.
Certamente a quantidade de páginas atrapalhou o andamento da história, mas os pontos positivos (e os personagens) acabaram superando até mesmo os defeitos mais graves. Tanto que, mesmo com todas as ressalvas acima, avalio esse livro como 4 estrelas – recomendo ao livro aos fãs de King e aos que querem conhecer por completo a história de Derry e da Coisa, claro, mas também a história de 7 amigos que se amavam muito.

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