Em 2015, um despretensioso e ao mesmo tempo ousado longa-metragem juvenil introduziu novos conceitos àquelas inacreditáveis missões, algumas em escala global, a serviço de Sua Majestade ou do governo americano, ou ainda da própria sobrevivência, pelas quais já passaram James Bond, Jack Bauer e Jason Bourne em suas aventuras. Curioso notar que esses três agentes tenham nomes cujas iniciais sejam JB, sigla que, não por acaso, batiza o adorável cãozinho de estimação de Eggsy, protagonista de Kingsman: Serviço Secreto. A inovação na proposta daquele filme de espionagem veio por conta da soma de vários fatores, entre eles o frescor da juventude, adicionado principalmente nos dois primeiros atos da trama, que ganhou contornos de ‘Harry Potter sem magia’, na qual um grupo de jovens passava por vários treinamentos e testes de resistência para, ao final, apenas um deles ocupar a vaga deixada por um agente anterior, morto em combate. O longa, obviamente, apresentou muito mais do que isso, sabendo dosar na medida certa um clima bem-humorado com sequências de violência extrema, além de um envolvente desenrolar da trama do segundo para o terceiro ato, culminando em uma produção que agradou a crítica e o público. Orçado em cerca de US$ 80 milhões e tendo arrecadado mundialmente mais de US$ 400 milhões, a Fox, satisfeita, se sentiu confortável para dar carta branca à realização de uma inevitável sequência.

Apenas dois anos depois, ela veio, injetando ainda mais energia a uma cinessérie que, afinal, está se mostrando promissora. Não é imprescindível ter assistido ao primeiro episódio para entender Kingsman: O Círculo Dourado, mas é aconselhável, pois vários aspectos da nova trama – inclusive as explicações acerca da presença de ao menos dois importantes personagens – estão inteiramente relacionados a detalhes mostrados naquele longa. Dito isso, não tenha receio de ficar ‘boiando’ porque ainda não viu o anterior, pois alguns rápidos flashbacks poderão ajudar na assimilação do que está se passando. Contudo, se você gosta do conceito de ‘espionagem juvenil’, faça um favor a você mesmo e veja o filme que começou a franquia, se familiarize com os ‘agentes alfaiates’ e, então, curta esta sequência e saboreie o máximo de diversão que ela tem para te proporcionar.

Esta segunda história traz novamente o protagonista, o jovem espião Eggsy, também conhecido pelo codinome Galahad (Taron Egerton) e Merlin (Mark Strong, variando um pouco após incontáveis papéis de vilões) como os dois únicos membros remanescentes da agência secreta britânica Kingsman (cuja fachada era uma alfaiataria) após terem sofrido um terrível atentado. Seguindo uma pista, eles vão parar em uma corporação co-irmã, chamada de Statesman, ambientada no Estado norte-americano do Kentucky, e cuja sede tem como disfarce uma destilaria de uísque (!).  Lá, os requintados ingleses cujos codinomes são inspirados pelas lendas dos nobres Cavaleiros da Távola Redonda conhecem os agentes cowboys Whiskey (Pedro Pascal), Tequila (Channing Tatum) e Champagne (Jeff Bridges), além da estrategista Ginger (Halle Berry, vencedora do Oscar de Melhor Atriz em 2002 por A Última Ceia, já faz tempo hein…). Juntos, os membros de ambas as agências somarão esforços para evitar que se concretizem os megalomaníacos planos de consumo mundial de uma droga letal perpetrados pela líder da organização criminosa conhecida como Círculo Dourado, a maléfica Poppy, vivida por Julianne Moore, oscarizada em 2015 por seu estupendo trabalho em Para Sempre Alice, e aqui convenientemente caricata.

O roteiro foi escrito pelo diretor Matthew Vaughn em parceria com Jane Goldman, repetindo assim os cargos exercidos por ambos na produção anterior, e novamente bebe na fonte da HQ de Mark Millar e Dave Gibbons, criadores dos personagens. A grande sacada da vez fica por conta do enorme contraste visto entre os estilos absurdamente opostos dos ingleses e dos americanos. De um lado, os refinados e elegantes agentes britânicos com seus ternos finos e irretocáveis, do outro, a crueza dos brutos agentes cowboys da terra do Tio Sam, com seus chapéus, cintos e botas de couro, laços na cintura e aquele habitual jeito ‘rude’ e despojado de falar. Se Colin Firth (que aqui volta a viver o agente Galahad “Sênior”) constitui o estereótipo máximo da imponência britânica, principalmente após ganhar, em 2011, o Oscar pelo papel principal em O Discurso do Rei, Jeff Bridges é o caipira norte-americano por excelência, sacramentado por também ter ganho o prêmio da Academia um ano antes, pelo drama Coração Louco, em que encarnou com maestria um cantor country decadente.

Também merecem destaque no elenco os já vistos no primeiro longa Edward Holcroft como Charlie, o agente reprovado que se tornou antagonista, agora com o acréscimo de seu super braço mecânico, e a bela atriz sueca Hanna Alström (praticamente uma sósia de Amy Adams), vivendo a princesa Tilde, namorada de Eggsy. Há ainda uma divertidíssima participação de ninguém menos do que o naturalmente espalhafatoso Elton John, no papel dele mesmo (em uma versão, digamos, exagerada) que, muitíssimo bem-humorado, comprou a ideia do filme e se rendeu à auto paródia, tomando atitudes inesperadas e surpreendentes em cena e proferindo um palavreado que daria orgulho a Dercy Gonçalves! É claro que a equipe criativa não desperdiçaria a oportunidade de dar destaque a alguma pérola musical deste ícone do Pop, e a escolhida foi “Saturday Night’s Alright For Fighting”, clássica e alucinada canção da fase setentista rockeira de Elton e que, quando se faz ouvir, ilustra com magistral sincronia uma empolgante sequência de ação, entre tantas apresentadas pelo filme ao longo de suas quase duas horas e meia. E a primeira delas é já nos segundos iniciais da projeção, evidenciando ao expectador que a ação é uma prioridade do longa, que ostenta claramente na telona seu maior orçamento em relação à produção anterior, com os efeitos especiais que permitem ao personagens utilizarem armas e equipamentos altamente sofisticados e engenhosos, além dos cenários grandiosos, câmeras lentas climáticas e close ups intensos (um deles tão profundo, mas tão profundo que chega a ser, eu diria, uterino!).

Em meio a tanta pirotecnia visual e narrativa, permeada também por aquele humor que às vezes esbarra no escrachado, porém sem exagero, o filme ainda encontra espaço para tecer, mesmo que superficialmente e calcado no absurdo cartunesco de sua proposta, um pertinente alerta em relação ao uso de drogas ilícitas, bem como suas consequências. Por mais piegas que pareça, ainda é válido ver em um blockbuster frases do tipo: “Nunca mais vou usar isso!” Em tempo, numa época em que o governante da nação mais rica e influente do mundo profere palavras ameaçadoras, incita o ódio e promove o preconceito, o cinema, uma vez mais, utiliza-se de sua linguagem (mesmo sendo dentro de um contexto ficcional que a princípio visa apenas o entretenimento) para fazer outra crítica velada, por meio do presidente norte-americano vivido no filme por Bruce Greenwood, cujas ações sugerem um caráter que, se não é idêntico, ao menos remete vagamente ao do atual e polêmico ocupante da Casa Branca na vida real.

ELENCO REUNIDO DE KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO.

Novamente despretensioso e divertido, violento e empolgante, jovem sem precisar ser demasiadamente adolescente, este segundo filme da série, Kingsman: O Círculo Dourado, traz de volta as aventuras de Eggsy & Cia. com a eficiência e a segurança de uma franquia que tem potencial para não ficar apenas em uma trilogia, e se estender para se firmar por muito mais tempo no mainstream, continuando a oferecer ao público novos filmes que tragam mais opções para os admiradores das famosas e absurdas aventuras vividas por aqueles agentes de nomes com iniciais JB que há muito tempo já fazem parte do imaginário popular.  Talvez a maior missão de Kingsman no cinema, portanto, seja conseguir, com o passar dos anos, consolidar a sua marca. Produções caprichadas, com elencos afinados, ternos elegantes e garrafas de uísque não vão faltar!

Kingsman: O Círculo Dourado (Kingsman: The Golden Circle). EUA, 2017, 2h 21min. Direção: Matthew Vaughn. Com: Taron Egerton, Colin Firth, Mark Strong, Julianne Moore, Pedro Pascal, Edward Holcroft, Hanna Alström, Jeff Bridges, Channing Tatum, Halle Berry, Sophie Cookson, Michael Gambon, Bruce Greenwood, Emily Watson, Elton John. Ação. Fox.

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