Esqueçamos por alguns minutos de tantas informações que recebemos ao longo dos últimos meses relacionadas à conturbada produção de Liga da Justiça. Deixemos de lado, por enquanto, o afastamento de Zack Snyder em virtude de uma tragédia familiar, a contratação de Joss Whedon para finalizar o projeto, as refilmagens que se estenderam até cerca de dois meses antes da data do lançamento, a recomendação (ou exigência) do poderoso chefão da Warner, Kevin Tsujihara, de que a duração do filme se mantivesse na casa das duas horas para, segundo ele, “facilitar sua comercialização”, o bigode de Henry Cavill… Não, desse detalhe não dá pra esquecer, mas sobre isso falaremos a seguir. Ao tirarmos de nossas mentes, portanto, ainda que momentaneamente, toda a pressão que envolveu a realização deste longa que, como sabemos, é de crucial importância para o avanço do DCEU no cinema, e apenas analisando o produto final, encontramos respostas à algumas (não todas) perguntas que nos assolavam durante todo esse tempo, e talvez a mais relevante delas seja: Liga da Justiça vale a pena?

Ainda em meio a um clima de comoção que tomou conta do planeta após a morte do Superman, vemos Bruce Wayne, o Batman (Ben Affleck) e Diana, a Mulher-Maravilha (Gal Gadot), cientes de uma nova (ou antiga) ameaça iminente, procurando os três meta-humanos sobre os quais já têm informações e com os quais pretendem formar uma equipe que enfrentará tal invasor e suas hordas demoníacas, que sabemos se tratarem dos parademônios. Somam-se ao time, portanto, o jovem e bem-humorado velocista Barry Allen, o Flash (Ezra Miller), o atormentado Victor Stone, o Cyborg (Ray Fisher) e o invocado Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa). A invasão extraterrestre se mostra determinada a reconfigurar o mundo a seu bel-prazer, sob o comando do Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) que pretende reunir as caixas maternas (que detém poderes além da compreensão humana) e, com elas, estabelecer um novo reinado de trevas sobre a Terra.

Percebe-se, com esta breve descrição do roteiro, co-escrito por Joss Whedon, que ele é relativamente simples, o que é bom. Tudo neste longa se desenvolve com certa rapidez, sem as complexidades existencialistas vistas em Batman Vs. Superman (que se encaixaram perfeitamente àquela proposta). Aqui, trata-se, afinal, de um autêntico filme de super-herói, que se assume como tal, plenamente convicto de sua proposta, contar mais um envolvente episódio da eterna luta do bem contra o mal, na melhor tradição de uma HQ do gênero. É uma obra do tipo que contagia, com as suas muitas (e bem concebidas) sequências de ação, não dando tempo ao expectador para filosofar. Desta vez, a DC lançou uma obra que mostra exatamente o que o público espera dela, ação e aventura ambientados em um clima de fantasia e com personagens carismáticos o suficiente para que torçamos por eles.

Mas com tanta correria em cena, como ficou o tempo de tela de cada personagem? Inevitavelmente, tamanho dinamismo reduziu o desenvolvimento de alguns deles. Entre os coadjuvantes, quase todos se revezam em suas aparições, que se dão apenas duas ou três vezes durante todo o longa. Quanto aos membros da Liga, o Cyborg de Fisher é o que possui menos cenas para mostrar a que veio. Com isso, seus dilemas pessoais acabam sendo deixados de lado. Embora a imagem de bad boy do Aquaman de Momoa se faça presente (e vemos um breve lampejo de seu núcleo aquático, a ser explorado no vindouro filme solo), seus momentos também ocupam menos tempo em relação aos demais. Enquanto isso, na ‘Sala de Justiça’ (!), o Batman de Affleck conduz o grupo de forma quase ‘protocolar’, mas ganha pontos sempre que está em combate, trajando seu imponente manto negro, ao passo que a Mulher-Maravilha de Gadot, desde que surge, já nos minutos iniciais do longa, mantém intacto aquele extraordinário carisma mostrado em sua aventura solo. É notório que ela ganhou mais destaque, e ninguém vai reclamar disso! Por fim, a interação entre eles, na maior parte do tempo, é certeira.

Então por que o Flash não foi citado no parágrafo anterior? Porque ele faz parte de uma categoria diferente… Aqui tocamos em um assunto que, ultimamente, tem se tornado delicado e polêmico, em se tratando do gênero ‘filme de super-herói’… o humor. Calma, não se desespere! É o seguinte: o personagem de Miller é declaradamente o alívio cômico, não há nada de errado nisso. Algumas de suas supostas falas ou movimentos engraçados, porém, simplesmente não decolam, não causam o efeito desejado. Em contrapartida, suas gags que conseguem fazer rir NÃO COMPROMETEM O TOM DO FILME, portanto, não precisa se preocupar. Acreditemos que seja só uma questão de tempo para que o Flash encontre o timing certo no cinema, afinal, a produção de Flashpoint está a um passo de ser confirmada, e o herói em ação mostra que tem potencial, ainda a ser melhor lapidado.

Qual é, afinal, o tom do filme? A paleta de cores que continua prezando por tons escuros (mesmo que mais amenos do que os vistos em BVS) e, no terceiro ato, avermelhados, somada à utilização de câmera lenta em vários momentos e à inclusão de simbolismos que remetem a obras renascentistas, além da costumeira brutalidade (no bom sentido) das sequências de ação e, é claro, muito fã service e easter eggs que só quem for ‘decenauta raiz’ vai pescar, todos esses ingredientes somados não deixam dúvidas, o longa ainda mantém o estilo DC, mais do que isso, o estilo Zack Snyder. Pode estar um pouco mais leve do que se esperava, é bem verdade, pois a tensão, o perigo e as consequências da invasão alienígena são pouco sentidas, e o Lobo da Estepe (de visual caprichado) apenas cumpre com o seu ‘dever de vilão’.

O CGI, na maior parte do tempo, está bem utilizado, embora, em alguns trechos, pode ficar aquela sensação de que o Cyborg poderia ter sido melhor detalhado em sua caracterização. Contudo, a maior decepção visual da produção se deve mesmo ao… bigode de Henry Cavill. Como foi amplamente noticiado, o ator participou das refilmagens de Liga da Justiça usando o bigode que, por questões contratuais com a Paramount, não poderia tirar, pois fazia parte de seu papel em Missão Impossível 6, que estava sendo gravado no mesmo período. Por conta disso, coube à equipe de efeitos visuais retirar digitalmente o bendito bigode do rosto de Cavill, e o resultado na tela, principalmente na primeira cena em que aparece, ficou, no mínimo… estranho. Não teria sido muito mais fácil raspá-lo de verdade e usar um postiço nas filmagens de MI6? Incongruências de Hollywood…

Falando nele, a participação do Superman é satisfatória? Sim, até porque a montagem do filme utilizou também cenas que ele já havia gravado com a ‘cara limpa’, sem a necessidade de retoques digitais. Como esta crítica não contém spoilers, nada será dito sobre a forma como ele volta. Basta dizer que as reações do público aos instantes que sucedem o seu retorno, certamente serão de espanto, admiração e, claro, comoção, pois se trata de uma sequência muito bem arquitetada. A trilha sonora não menos do que sensacional concebida por Danny Elfman ilustra com maestria este e outros momentos chave do longa, resgatando um rápido eco do tema clássico de John Willians para o Superman de 1978 e da alucinante trilha da Mulher-Maravilha composta por Hans Zimmer e Junkie XL e ouvida pela primeira vez em BVS, além de trazer de volta e em grande estilo aqueles inesquecíveis e espetaculares acordes criados pelo próprio Elfman para o Batman de Tim Burton, lançado em 1989. A empolgação sonora está garantida.

Retomemos, pois, todas aquelas informações que já tínhamos sobre o filme, e façamos algumas observações: a Warner notoriamente estava preocupadíssima em acertar com este longa, e para isso preferiu não arriscar, optando pelo caminho supostamente mais fácil. Duas horas de duração, roteiro simples, muita ação e aventura, um ‘clareamento’ na fotografia e a aposta no carisma de rostos já conhecidos. O resultado não deverá ser outro senão a aclamação dos fãs, do grande público e, sim, até da crítica. Outro ponto a favor é que não é uma tarefa fácil tentar descobrir se esta ou aquela cena foi dirigida pelo Znyder ou pelo Whedon, proporcionando uma continuidade que flui naturalmente no decorrer da obra. Contudo, é notória a enorme quantidade de cenas vistas na campanha de marketing que não entraram nessas duas horas do corte final. Inclusive a interrogação plantada na cabeça de muita gente, gerada pelo trecho de um diálogo visto em um dos trailers, ficou sem resposta (embora, ao ver o filme, saibamos, por dedução, com quem afinal Alfred estava falando). Restará aos fãs torcer e aguardar por uma versão estendida, em que os personagens poderão estar melhor desenvolvidos, sequências de ação poderão estar mais completas e um pensamento poderá vir à mente de quem assistir, o de que, se esse futuro corte mais completo tivesse sido lançado nos cinemas, poderia fazer tão ou até mais sucesso do que essa versão ‘modesta’ que chegou às telas.

Por enquanto, aprecie o filme na forma como foi concebido, rápido e dinâmico. Não perca as duas cenas pós-créditos (principalmente a segunda) e regozije-se com mais este incontestável acerto da Warner/DC na telona. Sim, Liga da Justiça vale muito a pena, é bom o suficiente para dar continuidade à progressão do DCEU, e inspirador ao ponto de vislumbrar um resgate da esperança depositada em seus heróis, muito bem representada pelo rosto sorridente de Kal-El, que não deixa dúvidas quanto à sua mudança na forma de ver seu papel neste mundo, otimismo compartilhado também por Bruce, Diana, Barry, Arthur, Victor, e outros que virão…

Roberto Oliveira

Alexandre Vivas Hordi

Liga da Justiça (Justice League). EUA, 2017, 2h 01min. Direção: Zack Snyder. Com: Ben Affleck, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Henry Cavill, Amy Adams, Diane Lane, Jeremy Irons, J.K. Simmons, Joe Morton, Billy Crudup, Connie Nielsen, Amber Heard, Ciarán Hinds, Jesse Eisenberg. Ação/Fantasia. Warner.

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