Após o tão badalado retorno de Ridley Scott à franquia que o consagrou ter dividido opiniões quando entrou em cartaz em 2012, a recém-lançada sequência daquela não muito bem-sucedida prequel parece repetir a decepção, mas desta vez cometendo outros erros.  Se Prometheus não cumpriu o prometido, Alien Covenant nem sabe o que prometer. Apesar de ter seus bons momentos, este novo filme da série parece se perder no roteiro tanto quanto seus personagens se perdem no inóspito planeta onde vão parar.

A premissa era tão boa, partindo dos mistérios deixados à deriva no já confuso filme anterior, envolvendo os Engenheiros e toda a conceitualização pseudo-filosófica-religiosa-existencial que permeou quase todo aquele longa. Nesta sequência, portanto, acreditávamos que iríamos descobrir, afinal, “qual é” a daqueles seres, o que queriam, e como os temíveis e sanguinários xenomorfos evoluíram para o formato clássico que conhecemos, enquanto que a narrativa, desta vez mais visceral, continua avançando cronologicamente rumo a 2122, ano em que ocorrem os eventos relatados pela Tenente Ellen Ripley a bordo da Nostromo no Alien original, de 1979. Alguns itens da frase anterior não são respondidos neste novo longa… e os que são, carecem de uma criatividade autoral mínima que se esperava do tão prestigiado cineasta britânico que fez dos xenomorfos os aliens mais famosos do cinema, o veterano Ridley Scott.

Covenant (cuja tradução literal seria aliança ou pacto) é o nome da nave-mãe que, no ano 2103, transporta, além de sua tripulação, cerca de 2.000 pessoas, em estado criogênico, rumo a um planeta cuidadosamente estudado e aprovado pelas indústrias Weiland (a famosa “Companhia”) para ser a mais nova colônia de terráqueos. Após um incidente que desperta os tripulantes antes da hora, um sinal supostamente humano é detectado em um planeta próximo. É o suficiente para que todo o trabalho de pesquisa e planejamento envolvendo a missão seja simplesmente deixado de lado para que uma nova rota seja traçada (!). Eles chegam, portanto, ao mesmo planeta onde a sobrevivente da nave Prometheus, Elizabeth Shaw, foi parar, dez anos antes, juntamente com o androide David. Não demora muito para os recém-chegados perceberem a presença de estranhas e agressivas criaturas perambulando por aquelas terras. Como se isso não bastasse, parece haver ainda na região uma terrível infecção de origem desconhecida e com consequências mortais…

A sucessão de ataques que se vê em seguida, apesar de nada originais, e ambientados em cenários igualmente pouco inspirados, pode, sim, provocar alguns sustos, e a variedade de “espécies” também contribui para a criação de tensão em algumas cenas. É o que ocorre em dado momento em que não sabemos como determinado alien, sendo confrontado face a face com certo personagem, vai reagir a tal situação. Já quanto à utilização do CGI para a concepção visual das criaturas, se por um lado pecar pela artificialidade, podendo desagradar aos fãs mais puristas, saudosos das fantasias de borracha utilizadas no primeiro filme (que assustavam de verdade), por outro faz com que apresentem uma agilidade animalesca e um dinamismo locomotivo que dimensionam o perigo a um nível mais imediatista, principalmente os face huggers (que ainda mantém os conceitos visuais básicos instituídos pelo visionário artista plástico surrealista H. R. Giger, que desenhou o Alien para o clássico de 1979), cuja rapidez ameaçadora inevitavelmente remete não só ao primeiro, como também ao segundo filme da série, lançado em 1986, o extraordinário Aliens – O Resgate, de James Cameron (que utilizava efeitos animatrônicos!). É claro que tais cenas apenas lembram as de outrora, o que nos leva ao outro grande problema deste filme, o elenco que, somado ao roteiro, proporciona verdadeiras pérolas!

Os humanos principais da trama formam a equipe de colonização mais insegura, inconsequente e desastrada que já se viu no cinema nos últimos anos. Algumas de suas atitudes beiram o ridículo, como, por exemplo, tocar em um ovo alien que se abre e OLHAR lá dentro, apenas minutos depois de ter matado um espécime adulto e ter visto do que eles são capazes. E se a suposta heroína da vez, vivida por Katherine Waterson (vista recentemente em Animais Fantásticos e Onde Habitam), carece de carisma, o que dizer dos demais? (…)

Os cinéfilos do mundo inteiro, porém, já perceberam nos últimos anos que, se um tal de Michael Fassbender está no elenco de um filme, sua atuação pode render os melhores momentos da produção, e é o que vemos neste longa. A maneira minuciosa com que o ator alemão interpreta os dois androides sintéticos da trama com personalidades tão distintas, o ambíguo David (oriundo de Prometheus, que possui uma predileção pelo sotaque britânico, explicada naquele filme) e o prestativo Walter (servindo à equipe da nave Covenant), desde a introdução do longa, em flashback, envolvendo o primeiro, passando pela interação entre eles no segundo ato, até culminar no surpreendente destino dado aos dois no desfecho, compõem alguns dos melhores momentos do filme.

Por fim, se colocado na balança, medindo seus prós e contras, Alien Covenant não é assim tão ruim quanto se tem alardeado por aí, embora esteja obviamente a anos-luz de distância da genialidade do original. Irônico é que ambos tenham sido dirigidos, em um intervalo de 38 anos, pelo mesmo cineasta. E Ridley Scott não larga o osso alienígena, o diretor afirma já estar trabalhando na continuidade da franquia com o próximo episódio que talvez ainda não seja o último desta sequência de prequels. Nós tivemos fé, fomos perseverantes, nos empolgamos com os trailers, vimos declarações entusiasmadas de elenco e equipe, acreditamos que poderíamos estar diante de um novo clássico que redimensionasse a carreira deste tão respeitado cineasta.  Não foi desta vez… Se existe uma lição que há anos o cinema nos dá com alguns de seus mais aguardados lançamentos é a de que: quanto menor a expectativa, menor a decepção. Ridley, você não me ilude mais. Mesmo assim, me prove que estou errado… e me surpreenda no próximo Alien!

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