*O Post a seguir pode incluir possíveis SPOILERS, você foi avisado.

Blockbusters hoje são maioria de filmes em cartaz e quase todos tem pouca ou nenhuma qualidade, e isso é triste. Dá a impressão que os reais esforços estão na TV ou em ótimas e excelentes produções que exibidas em festivais e mostras muita das vezes não chegam ao grande público e se chegam tem uma distribuição precária ou um trabalho de marketing fraquíssimo. Porém alguns diretores vão além colocando sua paixão por cinema acima de assuntos comerciais e um desses caras é Christopher Nolan. Considerado por alguns como o Kubrick de nossa geração vamos destrinchar superficial e brevemente a filmografia do diretor.

Seus filmes esteticamente tem uma beleza simplista usando enquadramentos que dão um maior espaço para o rosto dos atores, quase Close-Ups, e um cuidado com os elementos do cenário (cenografia), a fotografia um pouco mais natural utilizando tons amenos, porém sua grande característica é como ele conta suas histórias levando os blockbusters(Cinema comercial, de massa) à outro nível( Cinema de arte, mesmo que eu não concorde com o termo, Nolan se encaixa aqui).

Em seu terceiro curta e o único( ao que parece) a ser disponibilizado online, Doodlebug(1997), um homem persegue um inseto só para descobrir que se trata de uma versão menor de si mesmo. “O homem é o lobo do homem”.  Confira:

 

Á partir daí podemos notar como o aspecto psicológico irá permear todo seu trabalho, referência que encontramos até mesmo em sua produtora, Syncopy, derivando de “síncope“, o termo médico para desmaio ou perda de consciência. Mas o diretor não fica restrito ao tema, a sociologia e filosofia também são marcas fortes de sua filmografia.

Em Memento(Amnésia, 2000) após um assalto á sua casa, um homem tem sua mulher estuprada e  morta, devido a um golpe desferido pelo agressor, perde a capacidade de criar novas memórias, um empecilho na sua busca por vingança. Baseado em um conto escrito por seu irmão Jonathan Nolan (Westworld), o mesmo que co-escreveu alguns de seus filmes. A identidade do filme se caracteriza pela sua montagem, não linear, sendo contada em fragmentos, assim como a capacidade de memorização da personagem, as partes do filme onde se situam no “presente” são editadas em Preto e Branco trazendo um espírito mais mórbido e misterioso, apesar de não ser um filme confuso. Nisso podemos ver como Nolan, explora as condições humanas, neste caso uma busca por identidade.

As relações interpessoais exploradas em The Following(1998), seu primeiro longa, já indicava sua obstinação para perscrutar os recantos da mente humana, um jovem escritor começa a perseguir estranhos buscando material para o seu primeiro romance, até que encontra Cobb um ladrão que o convida a entrar nesse mundo. A excentricidade do personagem Cobb mostrada em seus diálogos com uma filosofia interessante e sentimentalista, fazendo o espectador voltar para si e refletir sobre a fala, em alguns momentos. Ao mesmo tempo em que tentamos entender as ações do protagonista, aparentemente um ser perturbado. Com um Plot Twist intrigante.

Insomnia(Insônia, 2002) também trouxe um personagem perturbado e atormentado, remake homônimo de um filme norueguês de 1997, sendo o primeiro filme em que o diretor trata de forma um pouco mais abrangente o tema moralidade, o bem e o mal, as falhas no sistema e nas pessoas que compõe a “justiça” temas que o levaram a compor, e expor em larga escala, sua obra-prima O Cavaleiro das Trevas(The Dark Knight, 2008) fazendo os adversários lutarem pela alma da cidade mostrando que todos tem um limite  e criando um dos maiores antagonistas do cinema, O Coringa de Heath Ledger. A história de Insônia traz um policial corrupto enviado para investigar o assassinato de uma adolescente em uma cidadezinha do Alasca, atira acidentalmente em seu parceiro. Em vez de admitir sua culpa, ele recebe um álibi inesperado. Além de ter de solucionar o caso da morte da adolescente, o policial se vê forçado a lidar com seus sentimentos e com chantagens que aparecem em seu caminho. O filme tem Robin Williams como vilão.

 

Antecedendo Cavaleiro das trevas, Batman Begins(2005) centra no medo, claramente inspirado pelos escritos de Frank Miller em “Batman: Ano um”. O medo no filme se encontra em diferentes representações, no medo de morcegos de Bruce, o antagonista que usa o medo como arma e a cidade que vivencia o medo e impunidade. Na humilde opinião de vosso redator é o filme mais “fraco” da franquia, mas ainda sim um bom e necessário começa para mostrar ao mundo essa abordagem mais “real” do Morcego, deixando o público excitado pela continuação fazendo com que Cavaleiro das Trevas fosse sucesso de bilheteria. Voltaremos à falar sobre esses filmes mais a frente.

Curiosamente The Prestige(O Grande Truque, 2006) é um de seus filmes menos comentados, porém não por falta de qualidade, pois a obra(como quase todos os filmes de Nolan) É uma das mais inventivas e inteligentes. Focando na disputa entre dois ilusionistas, que vira obsessão, até seu derradeiro e trágico fim. O filme inevoca o espírito das tragédias gregas mostrando como uma excessiva busca por sucesso e fama pode levar à ruína de bons homens, incluído o sacrífico daqueles que amamos, enquanto os princípios do ilusionismo fazem contraste simbólico com a vida, adaptação de um romance de Christopher Priest. Tem uma reviravolta alá M. Night Shyamalan. 

O diretor é conhecido pelo uso de efeitos práticos ao invés do tão conhecido CGI, dando um aspecto mais realístico nas cenas utilizadas e uma certa liberdade nas movimentações de câmera, um de seus filmes com maior utilização de efeitos práticos utilizados foi Inception(A Origem, 2010), trabalhando no meio da espionagem empresarial um grupo de invasores de sonhos recebe a missão de plantar uma ideia na mente de uma pessoa. Explorando o campo das ideias e ilustrando o subconsciente humano, os sonhos labirínticos, eu acho que o filme até tenha uma mensagem: É importante sonhar, mas não deixe de viver a realidade e encará-la. Com essa descrição podemos traçar uma linha até Interstellar(Interestelar, 2014), talvez uma carta de amor de Christopher para a humanidade, na história de um astronauta convocado para uma missão que pode salvar o planeta terra mas ao mesmo tempo nunca mais ver os filhos, Nolan até foi curador de um curta produzido pelo Google focando na beleza da humanidade, uma cápsula do tempo de Interestelar. Você também pode conferir aqui:

Voltando ao ponto, o subconsciente representado na forma de quinta dimensão onde podemos ir além da quarta dimensão mais o tempo, retendo coisas que nosso estado normal de consciência não capta em um primeiro momento, manipula-lo, e às vezes, expô-lo, técnicas usadas pelos personagens de A Origem para fazer a famosa extração. A parceria do diretor com o compositor Hans Zimmer em seus filmes mais icônicos fez com que os dois decidissem explorar uma forma diferente de trilha sonora em Interestelar, com notas altas evocando a emoção.

A falta do desenvolvimento de personagens em Dunkirk é uma característica do filme que se saí bem, deixando o foco para os homens, desespero e o horror da guerra imitando, na trilha sonora, o estilo de Insterestelar, porém voltado para o suspense. Apesar das tentativas de criar tensão, o filme falha, é morno. Christopher tentou fazer algo diferente aqui, e isso é bom. Colocando diversas referências a filmes de guerra aqui como, por exemplo, O Resgate do Soldado Ryan(Saving Private Ryan, 1998).

O excelente final para a trilogia Cavaleiro das trevas contada em Cavaleiro das Trevas Ressurge(The Dark Knight Rises, 2012), colocando como o principal vilão, Bane, na forma de terror físico, pois se formos analisar de perto a trilogia é composta pelos três vilões principais: Representando o psicológico/mente na forma do medo, o Espantalho, a alma, Coringa e o corpo/ força física, Bane. Uma tríade representando as necessidades que o herói tem de enfrentar para ter sua paz plena. Pois vemos metade do filme nosso herói espancado chegando á exaustão física, e como de praxe superando as dificuldades e salvando o dia. Então seu objetivo está completo, mesmo que resquícios de um desfecho incompleto com a alma(Coringa) ecoassem no confronto com o físico (Bane) e fossem pontos catalisadores na história, vemos aí ,na polêmica cena do chá (Convenhamos, era preferível não mostrar Bruce tendo uma vida normal, deixando apenas a face emblemática de Alfred sorrindo para a câmera, que enfim nosso herói conseguiu completar seu objetivo de salvar Gotham de si mesma e ao mesmo tempo ter seus demônios interiores vencidos, chegando à paz. Ótimo filme e excelente desfecho.

Acredito que o sucesso dos filmes de Christopher Nolan são um alerta para que as produtoras parem de subestimar a inteligência do pública, hoje mais que nunca precisamos de obras mais inventivas, inteligentes e ousadas capazes de mudar a cabeça da audiência e até mesmo de toda uma indústria, como é e foi os filmes de Nolan.

 

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