Em certo trecho de O Destino de Uma Nação, Winston Churchill pergunta: “Qual personalidade devo assumir?”, como se fosse uma cena extraída de algum Making Off, na qual o próprio intérprete do parlamentar, Gary Oldman, estivesse fazendo essa indagação, e com propriedade, visto sua imensa galeria de grandiosas atuações.  Há tempos que Oldman é um ator de muitas faces. As novas gerações o conhecem mais como o Comissário Gordon da trilogia Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, e também como Sirius Black, o amável padrinho de Harry Potter. Contudo, a carreira deste ‘velho homem’ (old man) é preenchida por diversos outros filmes memoráveis, nos quais ele pôde mostrar seu talento ímpar, quase sempre em papéis antagônicos. Já viveu, entre tantos outros, o controverso baixista dos Sex Pistols em Sid & Nancy (1986), o suposto assassino de Kennedy, Lee Harvey Oswald, em JFK (1991) e o policial corrupto que persegue Jean Reno e a debutante Natalie Portman (então com apenas 13 aninhos) em O Profissional (1994).

SID VICIOUS, DRÁCULA JOVEM E IDOSO NO MESMO FILME E WINSTON CHURCHILL, AS MUITAS FACES DE GARY OLDMAN.

Sem dúvida, um dos momentos mais notáveis da admirável trajetória deste celebrado ator inglês está no estilizado, ambicioso e bem-sucedido filme de Francis Ford Coppola lançado em 1992, Drácula de Bram Stoker. Com o rosto coberto por pesadas camadas de maquiagem, Gary compôs a versão idosa do vampiro milenar como se, de fato, tivesse vivido séculos intermináveis. Aquela fisionomia apavorante assombrou toda uma geração com seus gestos, falas e risadas sinistras… No decorrer do longa, o ator também surge em outras duas versões, igualmente convincentes e assustadoras, a mais jovem e… na forma de morcego gigante! Do terror gótico para o retrato biográfico de uma das personalidades mais marcantes da vida real envolvendo a Segunda Guerra Mundial, Gary Oldman dá vida e alma à Winston Churchill em O Destino de Uma Nação (cujo título original, Darkest Hour, bem que poderia ter sido traduzido literalmente, se já não existisse outra produção recente, que nada tem a ver com esta, batizada no Brasil como A Hora Mais Escura e que, por sua vez, se chama Zero Dark Thirty no original!!!).

Outros grandes atores já tiveram suas oportunidades de viverem personagens reais com o auxílio de uma maquiagem um pouco mais, digamos, densa, entre eles Jack Nicholson em Hoffa (1993), Anthony Hopkins em Hitchcock (2012) e, claro, Daniel Day Lewis, que levou o Oscar por Lincoln (2012). Poucas vezes, porém, o resultado da caracterização foi tão realista quanto em O Destino de Uma Nação, a ponto de nos fazer esquecer completamente que o ator que estamos vendo na tela não é, de fato, tão idoso, nem obeso. Há muitos momentos no longa em que a câmera faz closes fechadíssimos no rosto de Churchill, digo, de Oldman, como se desafiasse o expectador a tentar achar alguma falha na ‘máscara’. Difícil encontrar. De fato, ao ver Churchill na tela, o expectador se esquece completamente de Oldman, sendo este um dos melhores elogios que um ator poderia receber. A maquiagem, também digna de Oscar, contudo, de nada adiantaria se não fosse a entrega do velho Gary. Seus trejeitos, seu tom de voz, as inflexões na fala, os gestos, ora de fragilidade, ora de firmeza, não deixam dúvidas quanto ao formidável desempenho deste renomado ator, seguramente um dos melhores de sua geração.

Ao contrário do que se poderia supor, esta obra não faz um registro de toda a vida do influente primeiro-ministro britânico, mas apenas de seu primeiro mês à frente do cargo (que ocupou duas vezes), justamente quando teve de lidar com a delicadíssima situação envolvendo os soldados sitiados em Dunquerque, que gerou a Operaçao Dínamo, também mostrada – sob o ponto de vista dos soldados – no recente Dunkirk, do já citado Nolan. Dois ângulos distintos de um mesmo momento histórico da Segunda Guerra, ótima oportunidade para assistir a ambos os filmes em sequência! A direção de O Destino de Uma Nação, este novo registro biográfico (com altas doses ficcionais) proporcionado pelo cinema, ficou a cargo de Joe Wright, que tem experiência em produções de época, já tendo conduzido diversas obras recomendáveis para quem é apreciador do gênero, entre elas Orgulho e Preconceito (2005), Desejo e Reparação (2007) e Anna Karenina (2012), todos baseados em obras literárias de sucesso, e que também funcionam como uma trilogia protagonizada pela musa do cineasta, Keira Knightley.

Por abordar o dia-a-dia do renomado político, esta produção se dispõe a exibir, em dados momentos, as famosas formalidades da monarquia da terra do chá das cinco, durante as conversações de Churchill com o rei George VI (Ben Mendelsohn). Como aprendemos nas aulas de História, já nessa época (e até hoje) no Reino Unido o rei ocupava apenas uma função figurativa, com as decisões políticas ficando a cargo do parlamento britânico. Assim, o rei visto no filme apenas observa os acontecimentos à distância, durante a maior parte do tempo. Quem acompanha tudo de perto mesmo é a secretária, a princípio insegura e amedrontada com toda a alienação militar que a cerca, vivida pela lindinha Lily James. É sob o ponto de vista dela que acompanhamos algumas das discussões estratégicas que podem ser decisivas para o bem da nação, além dos discursos, lidos por Churchill com toda a segurança que as palavras que escolheu – e que ela datilografou – possam exprimir, e que dariam orgulho (ou inveja) ao rei George VI (o mesmo aqui vivido por Mendelsohn) interpretado em 2010 por Colin Firth (que ganhou o Oscar pelo papel) em O Discurso do Rei. Curiosidade: naquele longa, Winston Churchill é vivido por Timothy Spall, que também já participou da franquia Harry Potter, interpretando outro importante personagem… o ‘ratinho’ Perebas!

Em meio a cenários e figurinos que reconstituem com exatidão aquela temerosa Inglaterra durante o conturbado período em que a ameaça iminente do avanço das tropas de Hitler é sentida (repercutindo ao longo de toda a projeção), há ainda a esposa de Churchill, papel de Kristin Scott Thomas, que tem a difícil tarefa de tentar convencer seu austero marido a deixar de ser tão ranzinza. Pena que o filme, que até então ia muito bem, resolva conferir ao estadista no ato final justamente uma empatia e uma proximidade com o povo britânico que soam tão falsos quanto ver, por exemplo, nos dias de hoje, um presidente da república andando de ônibus ou de metrô (exceto em época de eleição, é claro!). As palmas ao discurso inflamado de Winston Churchill, vistas em dado momento, parecem convidar a plateia a também aplaudir, recurso desnecessário a uma produção que, na maior parte do tempo, mostrou (salvo as doses de fantasia às quais Hollywood não resiste) uma versão muito próxima de quem realmente foi este político tão influente, não só para a Inglaterra, mas para a História. Ao final, o maior mérito deste longa é mesmo nos apresentar a mais uma memorável face deste monstro sagrado do cinema, Gary Oldman.

O Destino de Uma Nação (Darkest Hour). EUA, 2017, 2h 06min. Direção: Joe Wright. Com: Gary Oldman, Lily James, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Stephen Dillane, Ronald Pickup. Drama biográfico. Working Title.

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