O ano era 2003, e a ‘Era Heróica’ do cinema dava os seus primeiros passos. Após os sucessos de X-Men (2000) e Homem-Aranha (2002), era só uma questão de tempo até que um outro personagem muito presente no imaginário popular também ganhasse sua chance nas telonas. Eis que surge, portanto, na esteira do sucesso de seus pares, o Hulk de Ang Lee. Mas, algo deu errado… O que teria sido?

As criaturas geradas por computador que já nos acostumamos a ver nos cinemas evoluíram muito nos últimos quinze anos, e o Hulk que hoje temos ao lado dos Vingadores e que muito em breve veremos lutando (e FALANDO) no próximo filme do Thor ‘convence’ em textura, expressões e movimentos. Entretanto, a versão em CGI do gigante esmeralda concebida para essa sua primeira incursão na tela grande recebeu duras críticas, sendo considerado superficial demais, quase um desenho animado. Houve até quem o comparasse com o ogro Shrek (não era para tanto)!

O problema é que, se um filme tem um protagonista digital que não é suficientemente convincente, toda a experiência de assisti-lo pode ficar terrivelmente comprometida. A despeito de seu aspecto visual, contudo, o tom escolhido para o longa parece ter sido, também, equivocado. O diretor taiwanês Ang Lee, conhecido por suas obras de teor mais filosófico, entre elas O Tigre e o Dragão (2000) e As Aventuras de Pi (2012), quis dar o seu toque pessoal ao anti-herói, e optou por mergulhar profundamente no psicológico do Dr. Bruce Banner (vivido por Eric Bana) e seus conflitos interiores em meio aos efeitos da radiação à qual foi submetido –  nesta versão desde seu nascimento – por seu pai (Nick Nolte), com quem passa a manter uma turbulenta relação. O bombardeio de raios gama que atinge Bruce em cheio quando adulto é só o estopim para que nele se manifeste algo que já estava latente há tempos.

Depois de muito suspense (e pouca ação), quando o Hulk finalmente surge em cena – neste projeto que chegou até a ser chamado de ‘filme de arte de super-herói’ – já se passou quase uma hora de projeção. O que vem a seguir é uma série de perseguições incansáveis – que percorrem um melancólico e belíssimo deserto – perpetradas pelo exército sob a liderança do General Ross (Sam Elliott), que vê o Hulk como um monstro a ser combatido. A trama segue para um desfecho dramático focado no acerto de contas entre Bruce e seu pai. Contendo algumas bizarrices, como ‘cães-hulk’ e o vilão apresentando ‘sintomas’ de Homem-Absorvente, a trama – embalada por uma bela trilha sonora composta por Danny Elfman, que fez os temas dos três Homem-Aranha de Sam Raimi, dos dois Batman de Tim Burton e está fazendo o da Liga da Justiça de Snyder/Whedon – ainda reserva espaço para explorar os eternos paralelos que são feitos do gigante esmeralda com os clássicos da literatura gótica Frankenstein da escritora britânica Mary Shelley e Dr. Jekyll & Mr. Hyde do escocês Robert Louis Stevenson, além, é claro, de A Bela e a Fera, por meio do envolvimento entre Banner e Betty Ross (Jennifer Connelly), a filha do general.

Soma-se a essa narrativa densa e intimista a atmosfera contemplativa e bucólica (com direito a criativas transições de cenas e divisões de tela que emulam a leitura de uma revista em quadrinhos), além das peculiaridades acima citadas, e o resultado foi o fracasso comercial. O faturamento mundial de quase 250 milhões de dólares ficou muito aquém das expectativas da Universal, então detentora dos direitos sobre o personagem. É curioso notar que muitos desses aspectos acima citados, comumente apontados como defeitos, se vistos sob outro ângulo, poderiam ser considerados como qualidades. Mas essa abordagem intelectualizada e de certa forma até ousada não era a que o público esperava, e o Hulk existencialista de Ang Lee acabou mesmo caindo no esquecimento, ainda mais que, apenas cinco anos depois, uma nova versão foi realizada, desta vez já devidamente inserida no Universo Cinematográfico Marvel, e com resultados (um pouco) melhores, conseguidos com uma exploração mais efetiva do famoso e agressivo estilo de ser ‘Hulk esmaga’ do gigante esmeralda. Mas essa é uma outra história…

Hulk. EUA, 2003, 2h 18min. Direção: Ang Lee. Com: Eric Bana, Jennifer Connelly, Nick Nolte, Sam Elliott e Josh Lucas. Ação/Ficção Científica. Universal.

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