Embora até hoje ainda seja fervorosamente execrado por onze entre dez fãs de cultura pop, por ter cometido a heresia de dirigir aquele que se tornou o MAIOR filme catástrofe (no PIOR sentido) de toda a história das produções de super-heróis (precisa dizer o nome do longa de 1997 que trazia aquela dupla dinâmica com bat-mamilos nos uniformes?), não há como negar que o diretor norte-americano Joel Schumacher possui, sim, em sua filmografia, algumas obras interessantes. Linha Mortal, lançado em 1990, sem dúvida, é uma delas. Protagonizada por um jovem e promissor elenco, encabeçado por Kiefer Sutherland e Julia Roberts que, como sabemos, se deram muito bem em Hollywood nos anos posteriores, esta pequena pérola do suspense apresentava uma trama, no mínimo, ousada. Orgulhosos e presunçosos, alguns estudantes de Medicina simulavam, neles mesmos, paradas cardíacas, para serem devidamente reanimados apenas alguns minutos depois. Eles pretendiam, com esse experimento, fazer descobertas revolucionárias acerca do pós-vida e, assim, tentar responder a uma pergunta que há milênios atrai a curiosidade do ser-humano: afinal, o que há além da morte? O que eles não esperavam eram as consequências paranormais de seus atos…

Julia Roberts, Oliver Platt, Kiefer Sutherland, William Baldwin e Kevin Bacon, o elenco de Linha Mortal, de 1990, dirigido por Joel Schumacher.

Passados 27 anos, e seguindo a onda dos incontáveis remakes que tomaram conta da indústria cinematográfica nos últimos tempos, o não muito conhecido Linha Mortal pode agora enxergar uma luz no fim do túnel (entendeu?) com a chegada aos cinemas de Além da Morte (cujo título em inglês é exatamente o mesmo da produção original, Flatliners), pois, independentemente de gostar ou não dessa nova versão, o expectador mais interessado, se quiser, poderá também garimpar o filme do Joel, ainda mais pela curiosidade de ver aquele elenco estelar em início de carreira. Traçando um paralelo entre as duas produções, será que os jovens que vemos desta vez na telona também irão brilhar nos próximos anos? Ao menos três rostos já são razoavelmente conhecidos do grande público: a suposta protagonista Hellen Page, de Juno (2007) e dois filmes da franquia X-Men; Nina Dobrev, de As Vantagens de Ser Invisível (2012) e a série Vampire Diaries e Diego Luna, visto em Rogue One: Uma História Star Wars (2016).

Contribuindo para trazer um interesse maior do público pelo longa, há até a discreta participação do próprio Kiefer Sutherland, cujo papel lembra vagamente o personagem que viveu na obra original. Se esta nova produção fosse uma sequência, como foi sugerido por aí, seria fácil supor que aquele jovem estudante de medicina se formou e, passadas quase três décadas, se tornou também um rígido e áspero professor. Mas não é o caso e, mesmo que fosse, a presença de Sutherland não desempenha nenhuma importância para a trama principal que, aliás, é quase a mesma do filme de 1990, com algumas modificações e atualizações que, somadas, infelizmente não justificam a realização deste remake.

O roteiro de Ben Ripley, o mesmo de Contra o Tempo, reproduz, portanto, aquelas situações além-morte vistas no longa de 1990, com o acréscimo de que, agora, a produção dispõe de melhores recursos visuais, ainda que sejam utilizados com economia. O avançado e bem iluminado ambiente hospitalar em que se passa a maior parte da trama, este sim, em muito difere da atmosfera gótica do original, ambientado naquela universidade que mais parecia um monastério da era vitoriana que, por sua vez, tinha muito a ver com os temas morte, vida, escuridão, luz… Toda a sugestão de cunho religioso que lá havia também foi quase completamente suprimida aqui, salvo uma ou outra fala, que passam desapercebidas.

A edição moderninha se preocupou em ocupar vários momentos do filme com baladas, raves e aventuras amorosas regadas a música pop, momentos que mais parecem ter sido extraídos de alguma novela global, e só reforçam a superficialidade com que aqueles estudantes estão lidando com a situação, literalmente brincando com a vida… e  com a morte. Este projeto, além da proposta de dar uma nova chance a uma premissa ousada, tinha gerado certa expectativa também pelo nome escalado para a direção, o dinamarquês Niels Arden Oplev que, em 2009, levou para as telas o primeiro volume da série literária Millennium, escrita por Stieg Larsson: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, longa que se tornou um grande sucesso do cinema sueco, tendo gerado duas sequências, além de um remake hollywoodiano conduzido por David Fincher em 2011. Oplev, contudo, desta vez não demonstrou na tela nenhum exercício de estilo, preferindo preencher essa sua nova obra com aqueles incontáveis clihês de produções adolescentes que se propõem a dar medo.

 

No fim, talvez esta seja a melhor definição para Além da Morte, mais um filme de suspense e terror focado em agradar a geração smartphone, com pequenos e rápidos sustos, pitadas de romances à la Malhação e um desenvolvimento do segundo ato em diante que praticamente ignora o seu suposto tema principal, que poderia render, mesmo em uma trama de terror: o uso da ciência para tentar chegar a respostas que atravessem o fim do túnel e enxerguem uma luz do lado de lá. Para quem não assistiu à obra de 1990 e quiser ver um terror levinho no final de semana, talvez até goste. E quando ouvir certo personagem dizer: “Hoje é um bom dia para morrer!”, lembre-se que Kiefer Sutherland disse isso, 27 anos atrás, com uma carga dramática muito maior. E pensar que essa releitura, mais uma para as novas gerações, não teria sido produzida se não fosse, evidentemente, pelo original, que merece ser revisitado, dirigido por… aham …Joel Schumacher!

Além da Morte (Flatliners). EUA, 2017, 1h 49min. Direção: Niels Arden Oplev. Com: Ellen Page, Nina Dobrev, Diego Luna, James Norton, Kiersey Clemons, Kiefer Sutherland. Suspense/Terror. Sony.

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