Excelentíssimos senhores executivos da Marvel Studios e da Walt Disney Company. Sou apenas mais um leitor latino americano de HQs. Venho, por meio destas poucas linhas, expressar minha humilde opinião acerca do mais novo rebento gerado por vocês: Thor Ragnarok.

Entendo que os senhores não ficaram plenamente satisfeitos com o desempenho do herói em seus dois filmes solo, e boa parte do público também não. Chris Hemsworth no papel do asgardiano não conseguiu conquistar na telona um carisma similar ao de seus pares Vingadores. Contudo, sua segunda aventura solo, Thor: O Mundo Sombrio, de 2013, possui uma aprovação um pouco maior, com apreciadores dentre os quais eu me incluo. Aquele longa conseguiu algo que o anterior nem chegou perto sequer de almejar: uma ambientação (um pouco) mais próxima daquela atmosfera nórdica e bárbara  que combina tão bem com este nobre personagem dos quadrinhos. Ainda assim, percebia-se na produção uma preocupação em não torná-la muito destoante do já consolidado Universo Cinematográfico Marvel, arquitetado para agradar às grandes massas, com suas tramas juvenis que nunca chegavam ao nível de gravidade que poderiam alcançar, com exceção, talvez, do surpreendente Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014).

Com a revelação, portanto, de que o terceiro filme do deus do trovão se chamaria Thor: Ragnarok, a chama eterna (!) de esperança que habita em todo coração nerd se acendeu intensamente, só para que nela fosse jogado um enorme balde de água fria quando vocês anunciaram o diretor escolhido para levar o projeto adiante: o neozelandês Taika Waititi. Egresso da criativa produção cinematográfica de seu país de origem, ele teria, com vocês, a oportunidade de, pela primeira vez em sua carreira, trabalhar com um grande orçamento, mas sem abrir mão de seu estilo, notável pelas COMÉDIAS que já dirigiu. Uma delas, O Que Fazemos Nas Sombras (2014), mostra, de forma competente e divertida, o cotidiano de um grupo de vampiros em meio às suas preocupações do dia-a-dia, uma sátira muito bem sacada que se apropria da mitologia vampiresca para criar diálogos e situações improváveis e absurdamente hilários. O que nos leva à inevitável pergunta: O QUE TAIKA WAITITI TEM A VER COM THOR RAGNAROK?

Ficou claro, com a contratação deste cineasta, que vocês, produtores, estavam apenas se apropriando do nome desse apocalíptico evento relacionado ao personagem, o Ragnarok, para realizar um filme que pouco teria a ver com tal história. Não se trata aqui de se respeitar ou não no cinema o material original das HQs. Passados dez anos do início do MCU, nós, expectadores, já percebemos que, afinal, são mídias diferentes, e adequações se fazem necessárias, vide… Capitão América: Guerra Civil (2016). O que realmente incomoda é a gritante mudança de tom, a preferência (motivada pela aceitação popular, ou seja, sucesso comercial) por não permitir que nada soe muito grave, somada à persistência em adicionar, continuamente, um humor desnecessário e que, em alguns (muitos) momentos, fracassa em sua única intensão de fazer rir, e ainda nos distrai do caos que DEVERIA estar sendo desencadeado na tela em virtude de uma trama envolvendo a deusa da morte e o fim de Asgard.

Não vou dizer que não ri. Algumas gags são realmente muito boas, mesmo, de verdade. A reação de Loki ao ver o Hulk pela primeira vez em Sakaar é impagável! Outras situações, porém, parecem mais dignas de serem vistas em uma sitcom qualquer, e não em um longa do poderoso filho de Odin… Sim, a marca de Waititi é claramente perceptível na produção por meio dos diálogos e, talvez justamente pela inexperiência do jovem diretor em conduzir um blockbuster, não foi dada a mesma atenção às cenas de ação, que parecem estar lá só para cumprir o protocolo. E ainda: cadê a noção de perigo? Onde está a urgência da situação a ser resolvida? Em que canto do filme se escondeu o drama que sua trama sugeria?

Vocês, executivos, encomendaram uma embalagem caprichada para a produção, hein! A direção de arte, toda ela calcada nos inconfundíveis traços do lendário desenhista Jack Kirby, além das cores psicodélicas que permeiam Sakaar, onde se passa boa parte da trama, tornam até agradável a experiência visual. Os figurinos também fazem bonito. Mas de que vale uma bela embalagem se ela traz, em seu conteúdo, um produto que não satisfaz, nesse caso, uma história que não está nem aí para o grau de periculosidade que poderia representar? Afinal, é só mais um Apocalipse, ‘ocasião’ que pediria, no mínimo, uma composição musical épica. Ao invés disso, o ex-líder da banda Devo, Mark Mothersbaugh, preferiu ocupar a faixa sonora do longa com trilhas que mais parecem saídas de um videogame, como já era de se esperar após a escolha de seu nome para este trabalho. Já a opção por incluir a clássica Immigrant Song, do Led Zeppelin, se mostrou outra escolha equivocada. Se uma canção fica linda em um trailer, isso não quer dizer necessariamente que ela combinará também com o filme em si. Não combinou.

A oscarizada Cate Blanchett, estreando no MCU, é uma atriz maravilhosa, disso todos já sabem, e sua Hela (cuja galharda não deve nada à dos quadrinhos) está convincentemente má, embora pudesse ter sido melhor desenvolvida. Jeff Goldblum confere ao Grão-Mestre um cinismo que caiu como uma luva ao papel. Já que desta vez Lady Sif foi sumariamente ignorada, Tessa Thompson como uma Valquíria foi uma boa adição ao elenco que traz ainda (além de algumas pontas curiosas e da breve participação do Doutor Estranho de Benedict Cumberbatch), o Skurge de Karl Urban e os já familiares Bruce Banner de Mark Huffalo, Heimdall de Idris Elba e Loki de Tom Hiddleston. Este último, no entanto, parece ter sido vítima, uma vez mais, do roteiro que não sabe direito o que fazer com ele, nem para que lado vai.

Quanto a Hemsworth, desde que protagonizou aquele mockumentary mostrando o que Thor estava fazendo durante Guerra Civil, ficou claro que ele tem time para a comédia. Contudo, torná-lo em seu novo longa quase um pateta trapalhão já é demais, não acham? Como se isso não bastasse, e conforme os trailers fizeram questão de destacar, o príncipe de Asgard perde seu precioso martelo encantado ainda no início do filme. Fato é que, sem ele, o herói tornou-se bem menos interessante. Não seria de se espantar se muitos saíssem do cinema (após as duas cenas pós-créditos, evidentemente), mais admirados com o Hulk do que com o próprio Thor. O gigante esmeralda esmagador (e a mini-adaptação de outra empolgante HQ: Planeta Hulk) é um dos maiores trunfos desta produção que, no entanto, ao fazer do Ragnarok dos deuses apenas mais uma aventura, cujas consequências são tratadas com a simplicidade de quem se olha no espelho para conferir seu novo visual, desperdiça uma história que teria um tremendo potencial para emocionar, encantar, comover, com uma obra que poderia ter sido executada de forma absurdamente diferente, intensa, avassaladora, épica…

Muito antes do início do MCU, eu li a clássica fase do Thor escrita e desenhada por Walter Simonson e, durante a viagem homérica que a leitura me proporcionava, imaginava aquelas lúdicas páginas transpostas para o cinema, em uma produção que poderia ser marcante, grandiosa, monumental, fabulosa. A emoção e a tensão proporcionados por essa extensa fase do herói, uma epopeia que soube, como nenhuma outra até então, resgatar toda a imponência daqueles personagens, inspirados na mitologia nórdica, e que fora narrada com tanta reverência, quase em clima de fábula, poderia, em uma eventual adaptação para a telona (mesmo com as inevitáveis adequações), se tornar uma belíssima fantasia medieval que, quem sabe, pudesse se equiparar em qualidade e, talvez, até em retorno comercial, à franquia O Senhor dos Anéis, se a Marvel se dispusesse a bancar uma adaptação com toda a dramaticidade, grandiloquência e magnificência que ela merecia.

Por isso me reportei a vocês, excelentíssimos senhores executivos da Marvel Studios e da Walt Disney Company. É claro que este longa, da maneira como foi concebido, fará bastante sucesso, renderá muito dinheiro às suas contas bancárias e os deixará felizes… por um tempo. Então, daqui a alguns anos, quando estivermos vivenciando um reboot total dos filmes de super-heróis da casa, pensem com carinho na possibilidade de realizarem um Thor: Ragnarok digno de toda a sua grandeza. Pelas barbas de Odin, façam do jeito certo da próxima vez.

Thor Ragnarok. EUA, 2017, 2h 11min. Direção: Taika Waititi. Com: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Mark Ruffalo, Tessa Thompson, Jeff Goldblum, Karl Urban, Idris Elba, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch, Clancy Brown e Taika Waititi. Aventura/Fantasia. Marvel Studios.

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