Estamos em 1960. A Era de Ouro dos quadrinhos já havia se encerrado. O fim do “boom” que os super-heróis tiveram durante a Segunda Guerra, associado à oposição contra esse meio- representado principalmente pelo Comics Authority Code- levaram diversas empresas do ramo à falência. O foco da Atlas(antiga Timely e atual Marvel) eram monstros, alienígenas, espionagem e westerns, não mais humanos aprimorados. A situação da editora viria a mudar quando seu proprietário, Martin Goodman, contratou o escritor Stanley Martin Lieber para revitalizar o gênero nela.

Sentinela nos anos 60, por Artie Rosen.

Sentinela nos anos 60, por Artie Rosen.

Ao invés de utilizar um super-herói já criado, Stanley Lieber(mais conhecido como Stan Lee) criou, em parceria com o iniciante Artie Rosen, um novo personagem que unia elementos de vários outros anteriores e era virtualmente indestrutível: o Sentinela. Após a criação(estreando a última linha da Atlas Comics, Startling Stories), a empresa passou a se chamar Marvel Comics e só aí que começou a nova safra heróica na editora, começando pelo título Fantastic Four, em 1961. Com o tempo, o personagem começou a aparecer apenas em crossovers e caiu no esquecimento, até que Paul Jenkins e Jae Lee o reformulassem completamente para o século que viria.

 


Enganando o mundo

Acreditaram no último parágrafo? Talvez não, mas quando o super-herói surgiu, em 2000, criado por Paul Jenkins e Jae Lee, a Marvel convenceu a todos de que o Sentinela realmente era um personagem criado por Stan Lee nos anos 60 e caído no esquecimento dos leitores! Várias mensagens chegaram ao Joe Quesada(editor-chefe) pedindo detalhes sobre o personagem que estava a retornar.

“Mas afinal, o que levou a Marvel a fazer isso?” Pois bem, Paul Jenkins e Jae Lee(dupla que ganhou o prêmio Eisner de melhor mini-série por Inumanos)levaram ao Quesada uma proposta de uma trama sobre um herói que havia sido esquecido por toda a humanidade(inclusive ele mesmo havia esquecido de seus feitos e força) e que, à medida que retomava a memória, seus amigos super-humanos também passariam a se lembrar e seus poderes retornavam gradualmente. Como estratégia publicitária, Quesada induziu o público a acreditar que o personagem era mais antigo que o próprio Quarteto em publicação, tornando assim os leitores uma parte integrante da história. O editor chegou a dar notas falsas no website da Marvel e a fazer um acordo com a revista Wizard, a fim de que esta divulgasse a morte do artista fictício Artie Rosen(o “co-criador” do Sentinela) e publicasse a descoberta de esboços e revistas desse herói esquecido da Marvel.


Reynolds, ao contrário do atlético e cabeludo herói que conhecemos hoje, tinha uma barriga de chope e um corte baixo em sua primeira aparição.

Reynolds, ao contrário do atlético e cabeludo herói que conhecemos hoje, tinha uma barriga de chope e um corte baixo em sua primeira aparição.

O Homem-Dourado

Além do golpe publicitário de sucesso, o que diferenciou a história das demais sobre “herói desmemoriado” ou um “caído em esquecimento”, foi a metáfora enaltecida que o personagem representava: a Era de Ouro dos quadrinhos e seu legado(não uma cópia do Superman, como alguns falam). Elementos de gibis da época, como o poder adquirido através de um soro(assim como o Capitão América), a Torre de Vigilância, um ajudante(Batman e Robin) chamado Batedor, o “S” no peito; foram utilizados na história como homenagem ao período inicial das hqs do gênero. Além disso, também havia muitas características da Era de Prata da Marvel, como o próprio nome “Robert Reynolds”, que, do mesmo modo de outros personagens como “Bruce Banner”, “Victor Von Doom“, “Fin Fang Foom”, era uma aliteração(traço típico de Stan Lee). Semelhantemente ao Peter Parker, Bob também lidava com valentões no colégio. Os traços do artista fictício Artie Rosen(na realidade o Jae Lee) remetiam à arte de Jack Kirby e, em outros trechos, o desenhista também fazia referência ao trabalho de ilustradores de períodos posteriores, a fim deixar a evolução do Sentinela paralela a dos quadrinhos.

A história, de título "Sentry- O Sentinela" na versão nacional pela editora Mythos, representa metaforicamente a Era de Ouro e de Prata e o fim destas.

A história, de título “Sentry- O Sentinela” na versão nacional pela editora Mythos, representa metaforicamente a Era de Ouro e de Prata e o declínio destas(nota-se o sidekick com o braço multilado, relembrando seus tempos heróicos, além dos dizeres “Foi a perda definitiva da inocência, o fim da Era Dourada”).

Como puderam perceber, há um grande vácuo no que comumente é dito sobre o Sentinela. Por mais que o golpe publicitário pareça ter sido apagado da mente dos leitores, junto com o que o personagem representa, homenageia(que não se restringe a um “S” estampado) e desconstrói ao mesmo passo dos períodos representados; esperamos que, gradualmente, comecem a relembrar tais fatos. Afinal, dificilmente conseguirão fazer novamente uma história que transcende as páginas da hq e coloca o expectador numa situação tão similar a dos personagens.

%d blogueiros gostam disto: