Ontem estreou em algumas salas do cinema nacional, o filme Silêncio, do veterano Martin Scorcese. Antes da review ao filme em si, uma crítica: Horrível essa obsessão das distribuidoras em querer entupir TODAS as salas de cinema com Block Buster. Se o cinema tem 7 ou 8 salas, qual a necessidade de encher essas mesmas 7 ou 8 salas do MESMO filme…. que alternasse pelo menos os filmes…. mas, preencher todo o cinema com o mesmo filme em TODOS os horários soa como grotesco… mas, enfim… Vamos a review…

 

Silêncio tem tudo para se consagrar como um dos mais primorosos filmes de Martin Scorcese. Primeiro porque foge um pouco do que estamos acostumados nos filmes de Scorcese. Sai de cena as conturbadas cenas nos subúrbios e centros de grandes cidades (como vimos em Taxi Driver e Cassino, por exemplo) e entra um lugar de paisagens bucólicas. Sai tramas policiais folhitinesca (como vimos, por exemplo, em Os Infiltrados) e agora trata-se de um filme que fala de religião.

 

Silêncio veio mostrar uma faceta, digamos, pouco conhecida da Igreja Católica. Sempre estamos acostumados a ver nas aulas de História, uma Igreja Católica nos tempos feudais sendo perseguidora, opressora e, dependendo de alguns momentos (como as Cruzadas e a Santa Inquisição), até mesmo violenta contra aqueles que iam contra seus ideais. O que vimos em Silêncio é uma Igreja calma, pacífica e PRINCIPALMENTE, submissa. Uma Igreja Católica passiva e com escrúpulos. Uma Igreja Católica que esconde a tua derrota num passado distante.

 

A trama de Silêncio foi baseada num romance do autor japonês chamado Shunsako Endo. O romance mostra um lado obscuro de uma pequena fatia do povo japonês: nipônicos que abraçaram a fé ocidental. Nipônicos que se desfizeram do xintoísmo e do budismo para se afeiçarem a religião de uma outra cultura. Shunsako Endo foi católico desde criança. Ele sabe do preconceito que sofreu por viver num país onde, de 100%, apenas 2% da população é de uma vertente da Cristandade (entre evangélicos, católicos e testemunhas de Jeová). Silêncio (Chinmoku, no original, 1966), é um romance que fala sobre a perseguição e opressão realizada de forma violenta por Japoneses contra católicos estrangeiros e japoneses.

 

Segundo depoimentos do próprio Scorcese, ele tinha planos para uma adaptação para fazer esse filme faz mais ou menos uns 25 anos. A adaptação mostra como dois jesuístas, que receberam a notícia de que o mestre deles tenha se tornado apóstata no Japão, devido a violenta perseguição contra católicos e, a partir daí, eles viajam ao Japão, com um preconceito sobre a cultura e o povo japonês. Eles entram no Japão clandestinamente e são recebidos com honras e glórias por uma pequena população católica oprimida.

 

Não se enganem. A grande questão do filme NÃO é mostrar a perseguição sofrida por católicos no Japão dos anos 1600. Isso foi a máscara usada para esconder a real intenção do filme: falar da crise de fé. Sim! Agora se deu a entender o porquê do título da obra ser SILÊNCIO. Os padres Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Guarupe (Adam Driver, irreconhecível depois de perder 20 quilos para o filme) ficam o tempo todo orando pra saber o porquê de tamanha perseguição e eles não obtêm a resposta. Os dois passam o filme todo com as indagações: “Será que vale a pena seguir essa fé? Por que Deus não me responde?”. E isso acaba acarretando uma crise entre os dois e entre suas fés. Cada um está conduzindo a sua fé de uma forma diferente. Estão seguindo direções opostas para encontrarem a mesma resposta. Parece dúbio, né? Mas não é. Só no final que Deus responde.

 

Sobre a parte técnica do filme, o GRANDE acerto está na LINDA fotografia de Rodrigo Prieto. Com cores que variam entre o verde e o cinza, a fotografia deu um tom soturno ao filme. Além do excelente enquadramento da câmera, que deu para ressaltar as nuances das cenas. Outro acerto está na EXCELENTE direção de arte, que reconstituiu um Japão Feudal com destreza e imponência. Os figurinos se mostraram soberbos. Vestiram os japoneses católicos de trapos cuidadosamente bem trabalhados e sujos e os da alta classe com lindos quimonos pomposos. No elenco, a presença de Liam Nesson é incorruptível. Mas, PARA MIM, Yosuke Kubozuka (que deu vida ao desesperado e traidor Kichijiro) foi o melhor do elenco. Adam Driver estava irrepreensível no filme. Andrew Garfield é um bom ator, mas eu achei que estava cedo para a carreira dele pra pegar um papel desse tipo. Uma diamante não é lapidado de qualquer jeito. Tem que ser lapidado com cuidado, e não de maneira brusca. Garfield deu umas escorregadas e se mostrou canastro em algumas cenas, principalmente as de choro. Os efeitos especiais foram simples. Foi focado mais na violência. Aliás, a violência é mostrada nua e crua. E foi mostrada de uma maneira até “poética”. As mortes do filme foram bem executadas. Aliás, teve de tudo um pouco. Os católicos “morreram” queimados, enterrados vivos, afogados, decapitados, crucificados, cortados ao meio. Mostrou morte de adolescentes, idosos, homens e mulheres sendo assassinados pela inquisição. Uma peculiaridade do filme está na ausência de uma trilha sonora. Aliás, foi o segundo filme pós-anos-50 que vi na vida que NÃO teve uma trilha sonora (o primeiro foi Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, 1963). A música aparece em três ocasiões: no hino cantado por Mokichi (Shiniya Tsukamoto), nos festejos da cidade de Nagasaki e nos mantras budistas cantados pelos monges. E só. Mas a ausência de trilha sonora não comprometeu a qualidade do filme.

Silêncio é um filme que mostra um Scorcese que não conhecemos. Mostra ele absorto em outra cultura sem abrir mão dos protótipos “Hollwoodianos”. Vale MUITO a pena assistir esse filme que, mesmo longo (162 minutos), não consegue nos deixar entediados e cada momento do filme dá para ser aproveitado. Assistam, pois vale a pena. AMÉM! 😀

 

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