(Não se preocupe, os SPOILERS estão muito, muito distantes desta crítica)

Como é prazeroso assistir a uma história tão exuberante, feita sem medo de errar, onde não se percebem interferências diretas do estúdio e composta por elementos que fazem parte de um universo muitíssimo bem estabelecido há mais de 40 anos e que ainda tem muito a contar. Star Wars: Os Últimos Jedi é um extraordinário episódio de uma saga que está sabendo se renovar sem perder a sua essência e, com isso, preservando seus antigos fãs e conquistando novos.

A exemplo do que aconteceu em 2015 com O Despertar da Força, este novo longa traz acontecimentos no desenrolar de sua trama sobre os quais é melhor não saber absolutamente NADA antes de vê-lo, pois as surpresas serão muitas. Para atiçar ainda mais a curiosidade, basta mencionar os momentos que o fará pensar que este ou aquele personagem foi para este ou aquele lado ou teve este ou aquele trágico destino… Será? Descubra na telona e sinta as fortes emoções que lhe aguardam! Vale ressaltar ainda que as duas cenas mais impactantes do último trailer, remetendo ao conflito entre mãe sensitiva e filho com o dedo no gatilho e também a essa mesma mão estendida para outra personagem ESTÃO NO FILME!

É perceptível o cuidado com que este episódio foi realizado, em todos os aspectos. Desde o roteiro, de autoria do também diretor Rian Johnson (que em 2012 lançou a interessante ficção-científica policial Looper), passando pelo elenco formidável, a campanha de marketing acertada e a pós-produção, tudo culmina nessa epopeia estelar de duas horas e meia (que passam voando) que sacia generosamente os sedentos por mais e mais desta incansável saga. John Williams é outro integrante dessa equipe que não poderia faltar, reciclando, atualizando e ampliando a magnitude sonora dos inesquecíveis temas que compôs para essa space opera desde o primeiro filme, de 1977.

Quem acompanha a franquia sabe das várias características que fazem parte de sua narrativa, entre elas a tirania de inspiração nazista do Império/Primeira Ordem, a escassez de recursos compensada pela coragem dos Rebeldes/Resistência e, é claro, a constante tentação ao Lado Negro/Sombrio da Força (ou o contrário), na eterna luta do bem contra o mal. O novo episódio não foge à regra. Também faz parte dessa fórmula vitoriosa o alívio cômico, (quase) sempre proporcionado pelos droides e pelas criaturinhas fofinhas da vez (no caso, os porgs). São sutis pitadas de um humor acertado, que não tiram a seriedade da trama.

As suaves doses de filosofia durante os treinamentos Jedi é outro importante ingrediente nessa mistura de influências religiosas, históricas e culturais que culminaram na maior criação de George Lucas, se tornando esse empreendimento gigantesco que, diga-se de passagem, está sendo muito bem administrado pela casa do Mickey. Desta vez alguns conceitos filosóficos são levemente enriquecidos, ao passo que os poderes Jedi ganham uma amplitude trovejante, jamais vista na telona. O ato de passar a mão sobre o próprio ombro para tirar a poeira nunca foi tão grandioso! Com o perdão do trocadilho, a Força está mais forte do que nunca! O que nos leva aos detentores de tal poder, e também aos personagens ‘normais’, constituindo um belo trabalho de equipe. O carisma conquistado por todos eles nos longas anteriores só torna essa viagem àquela galáxia distante ainda mais prazerosa.

O Luke Skywalker de Mark Hamill está magnânimo. A Princesa/General Léia de Carrie Fisher – que nos deixou no final de 2016 – traz com ela uma sensibilidade ímpar e comovente. A Rey de Daisy Ridley é simpatia pura. Quanto ao convenientemente odioso Kylo Ren de Adam Driver… você verá! O Finn de John Boyega se mostra ainda mais comprometido com a causa, e o Poe de Oscar Isaac ganha muito mais importância e tempo de tela em relação ao longa anterior.

Esses protagonistas, cada um em sua própria jornada, cada um em um lugar diferente da galáxia  outro aspecto recorrente nas histórias de Star Wars – mas todos lutando pelo mesmo ideal, nos permitem vislumbrar novos cenários paradisíacos, que vão desde a belíssima Ilha Jedi em que Rey encontrou Luke no final do filme anterior até a uma base da Resistência encrustada em um deserto de sal, vista nos trailers (e rodeada por lobos glaciais), resultado do comprometimento das equipes de direção de arte e fotografia. Essa ação simultânea típica da saga (em que duelos com sabres de luz se intercalam com exércitos se enfrentando sobre o chão arenoso de um planeta longínquo enquanto, no espaço, dezenas de naves se engalfinham) consegue ser, de novo, absurdamente tensa, tornada possível graças aos sempre eficientes efeitos especiais (e espaciais), somados ao 3D bem utilizado – principalmente nas cenas aéreas – que garantem uma completa imersão a esse fantástico universo.

É evidente que há semelhanças na estrutura deste Episódio VIII com O Império Contra-Ataca. Mas há similaridades também com O Retorno de Jedi, e talvez seja aí que o filme encontre um pequeno distúrbio em sua força (!). O destino dado a alguns personagens que se apresentavam com muito potencial poderá ser do desagrado de uma parcela do público, sensação essa que talvez influencie na criação de uma expectativa nebulosa para o próximo longa. Em dado momento, ambientado em certo cenário avermelhado, um desfecho envolvendo um sabre de luz e a Força soa quase como uma paródia ao clímax do Episódio VI. Apesar dos pesares, e a julgar pelo esmero com que a Disney tem tratado a saga até agora, acreditemos que eles saibam o que estão fazendo, e torçamos para que nos deem um Episódio IX tão ou até mais empolgante do que este. Como será prazeroso assistir, em 2019, a um encerramento de arco glorioso, digno dos episódios que o antecederam, e de toda a franquia Star Wars, sem dúvida uma das mais queridas do cinema.

Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi). EUA, 2017, 2h 32min. Direção: Rian Johnson. Com: Daisy Ridley, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Oscar Isaac, John Boyega, Kelly Marie Tran, Benicio Del Toro, Laura Dern, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Gwendoline Christie e Andy Serkis. Ficção Científica/Aventura. Lucasfilm.

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