Ridley Scott usa sombras e sofisticação para contar a história da família Getty, porém a falta de foco da narrativa e a indecisão do que deseja evidenciar podem exigir um pouco mais de paciência do público que deseja mergulhar na trama.

 

  “O dinheiro não traz felicidade – para quem não sabe o que fazer com ele. Esta frase, escrita por Machado de Assis, poderia muito bem abrir Todo o Dinheiro do Mundo, novo filme de Ridley Scott (AlienBlade Runner). Em vez disso, o diretor prefere frisar no começo e no final do longa que a história contada é baseada em fatos reais e que os acontecimentos e nomes foram modificados para melhor construção do drama. Essa informação já é o suficiente para nos mostrar a intenção de Scott, produzir um filme de caráter sério e que alcance status de relevância, um filme pra brilhar nas premiações. De fato, em Todo o Dinheiro do Mundo há a vontade de nos contar sobre uma realidade específica e somos apresentados a questões pertinentes, porém, saímos da sala de cinema sem algo muito palpável para nos agarrar. A falta de foco no que é mais importante e interessante para a trama assim como a incapacidade de escolher o que deseja comunicar ao espectador acaba deixando aqueles que assistem ao filme perdidos em boa parte do tempo.

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  A história é até simples e nos mostra um momento específico da vida de J. P. Getty (Christopher Plummer), o homem mais rico que já existiu, quando seu neto Paul Getty (Charlie Plummer) é sequestrado. Após o vô negar pagar o valor do resgate acompanhamos Gail (Michelle Williams), a mãe do menino, e sua luta para tentar convencer Getty ou os criminosos a salvarem a vida de seu filho. Ao longo do filme também vemos a trajetória do ex-espião e negociador Fletcher Chase (Mark Wahlberg) e de Cinquanta (Romain Durris), um dos sequestradores. Baseado no livro de John Pearson, o roteiro de David Scarpa (A Última FortalezaO Dia Que a Terra Parou) consegue construir bem o suspense e a sensação de emergência. Porém, o espectador não consegue imergir na trama, que é constantemente cortada por flashbacks do passado seja da família ou da vida de J. P. Getty. Essas inserções biográficas, apesar de interessantes, quebram a ação do longa. Também começam a aparecer cenas que não tem função no enredo, pois além de nao mover a história pra frente começam a dividir a atenção do público. O público então se vê obrigado a fazer o papel de Getty e começa a negociar consigo mesmo para manter o interesse no filme e decidir qual das narrativas vai “comprar”, seja o suspense do sequestro, o drama causado pela cadeia de acontecimentos ou procurar entender as ações e a mente de Getty. O filme só consegue manter bom ritmo a partir da transição do segundo para o terceiro ato, porém dependerá muito da generosidade de quem o assiste. Mesmo os que não acompanharam os bastidores e polêmicas do filme terão a sensação de que o filme é irregular e que sua montagem é confusa.

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Esbanjando charme e experiência, Christopher Plummer nos entrega uma atuação que só mesmo um ator de 89 anos poderia criar.

  É quase impossível não comentar sobre esses bastidores e polêmicas, visto que influenciaram diretamente no filme. Além do roteiro, é perceptível que os atores sofreram com as refilmagens de algumas cenas, realizadas devido a substituição de Kevin Spacey depois que casos de assédio envolvendo o ator vieram á tona. Wahlberg e Williams aparecem muito menos inspirados em tela e é possível perceber a diferença de vitalidade entre as cenas já gravadas e as refeitas. Já Chistopher Plummer é um frescor de 89 anos em cena e uma das melhores coisas do filme. Aproveitando de toda sua experiência o ator não parece ter sido pego de surpresa para assumir o papel e está muito á vontade, nos provocando interesse pelo personagem e pelo jeito como enxerga o mundo. Apesar da natural curiosidade para saber como seria a interpretação de Spacey, Plummer é perfeito no personagem e é difícil imaginar outro ator no papel. Apesar disso, a indicação ao Oscar de Melhor Ator soa mais como uma cutucada em Spacey do que um reconhecimento do mérito de Plummer. Cabe aqui também um reconhecimento da coragem de Ridley Scott ao bancar a substituição e as refilmagens, sabendo de como isso poderia afetar o filme, em apoio aos movimentos.

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  Quanto a técnica do filme, podemos incluir elogios para as instalações e paisagens reais que vemos em tela, resultado da busca em deixar o filme mais factual e próximo da realidade dos acontecimentos. Com uma fotografia que utiliza tons mais escuros e sombras, principalmente nos ambientes onde J. P. Getty está, o filme busca dar um aspecto frio e quase sepulcral ao mundo do magnata e ao dinheiro, além de ressaltar a dualidade dos personagens e de suas vidas, sempre na linha tênue das luzes dos holofotes e da obscuridade da vida privada.

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Enfim…

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  Todo o Dinheiro do Mundo é um filme que dependerá muito da boa vontade de seu espectador, que se verá obrigado a ter paciência durante os 2 primeiros atos do filme para então empatizar com alguns (ou algum) personagem ou pontos de vista explorados por Ridley Scott. Se fizer isso, poderá encontrar um thriller de suspense interessante e interpretações carismáticas, como a do ator francês Romain Duris no papel de Cinquanta e a de Christopher Plummer no papel de J. P. Getty, além de um charme de época e uma fotografia que busca o refinamento. Porém, a sensação de confusão e de que o filme parece uma colcha de retalhos pode atrapalhar a experiência, assim como a falta de definição (intencional ou não) sobre o que Todo o Dinheiro do Mundo quer discutir e nos mostrar. Parece que no fim das contas o filme não consegue superar a relevância que teve fora das telas. Além de algumas pequenas reflexões, o que Ridley Scott e as histórias em tela e em bastidores nos mostram é que há outros valores em jogo em nossa sociedade, e que nenhum homem é poderoso e auto-suficiente o bastante para viver por suas próprias leis. No fim das contas, nem todo o dinheiro do mundo e nem todo o talento do mundo podem te salvar.

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