Por Chris Stark

Dentre tantas vítimas de 2016, temos o escritor Richard Adams, morto nesse dia 28/12, aos 96 anos. Eu tinha outros planos para começar o meu primeiro texto da sessão retrô ao qual me convidaram para participar aqui no site, mas como a morte dele rendeu poucas notícias, se comparado a nossa querida General, Carrie Fischer, decidi fazer uma resenha sobre sua obra mais famosa, escrita na década de 70 e que gerou uma das animações mais controversas da história do cinema.

Sendo lançado como uma obra independente, devido a recusa de grande parte das editoras britânicas, Watership Down, em português, A Longa Jornada, vendeu mais de 100 mil exemplares apenas no Reino Unido, e mais de 50 milhões de cópia no mundo todo. Em 1978 ganhou sua versão animada em forma de longa metragem, e que até hoje causa algumas controvérsias no mundo devido ao seu “teor de violência gratuita”.

Meu objetivo aqui vai ser mesmo falar do filme em si, já que o livro não é algo fácil de ser adquirido aqui no Brasil – pelo menos para mim – trabalhei por alguns anos em um sebo de minha cidade e não tive a oportunidade de pegar o livro em mãos. Mas como o site trata de cultura pop no geral, não vejo problemas abordamos o filme, visto que o filme foi o que causou um certo rebuliço na época (e diria que até hoje).

 

Ok, vamos começar.

[TEXTO PODE CONTER SPOILERS]

 

Watership Down é aquele filme que você bate o olho e automaticamente tem uma lembrança distante de Bambi da Disney. É uma história simples, mas que pode ser interpretada de várias formas, claro de acordo com a sua idade e carga cultural. O filme gira em torno de coelhos, muito bem desenhados por sinal, com um toque um pouco mais realístico do que o design de Bambi. O personagem principal é Hazel, um coelho que tem um irmão um tanto que esquisitinho. Esse irmão, Fiver tem a estranha habilidade de pressentir o perigo. Fiver acorda surtado e diz que eles precisam sair dali o quanto antes, e assim temos nossa primeira ação incomum do filme, o pressentimento de Fiver é representado por uma poça de sangue que começa no topo do morro até se tornar uma grande piscina. A dupla tenta alertar o chefe da “tribo” (warren), o termo usado na tradução foi “coelheira”, mas o chefe diz que só se ocupará com isso após a época de acasalamento. Essa parte do filme é essencial para entendermos um ponto importante na história: a formação das coelheiras como um sistema. Tem o chefe, logo abaixo seus capitães, e por aí vai até chegarmos aos inferiores.

Assustado, Fiver e Hazel conseguem convencer alguns membros de sua coelheira e fogem a rumo de qualquer lugar que não desperte sentimento de horror em Fiver, que já era conhecido por nunca ter errado suas previsões. Antes de partir, são parados por um desses capitães que de forma bruta deixa bem claro que vai tentar matá-los se deserdarem e criarem motim. (??????) É, não é uma obra voltada ao público infantil como deu para perceber. E assim começa a longa jornada da tradução.

Passando por alguns imprevistos, como os problemas em si da natureza, predadores como raposas, cachorros e gatos, o grupo finalmente chega em um lugar próximo do ideal, mas não possuem fêmeas, e com a ajuda de um pássaro muito doido, tentam resolver esse problema de população. Mais tarde recebem a visita do primeiro Capitão Holly que tentou os impedir, gravemente ferido, o que dá mais um certo choque para os desavisados ainda imaginando o filme bem infantil, ele conta sua história, Fiver estava certo, a coelheira foi destruída devido a construção do homem que simplesmente meteu cimento em tudo sem aviso prévio, é um dos problemas discutidos no filme sim, mas não é bem o foco principal. Antes de desmaiar ele cita uma outra coelheira onde tentou ajudar uma fêmea a fugir e isso implicou seus ferimentos, e não o incidente com os homens.

Agora sim chegamos ao ponto crucial do filme que fará você se pensar: ainda bem que não fiz meus filhos/irmãos mais novos assistirem isso.

A outra coelheira é exatamente um sistema ditatorial muito mais perverso do que o primeiro, sendo criados por um chefe que só pensa em poder, a coelheira também tem seus capitães autoritários e designados a tarefas territoriais, todos os coelhos são marcados com um ferimento indicando a que “setor” eles pertencem, e não podem cruzar a área sem a permissão. Além disso em uma pequena cena que retrata a coelha que deveria ter fugido vemos também ainda que disfarçado a objetificação das fêmeas como apenas meros produtos de reprodução. Ela reclama que estão todas muito cansadas de reproduzir e mais tarde, vemos o Chefe – General Woundwort – oferecendo-as como um prêmio para seu novo Capitão.

A treta verdadeira começa quando Hazel e sua tribo decidem resgatar esse pessoal que quer fugir da coelheira assim formando um estado independente, como eles mesmo chamam. Bigwig, o melhor soldado entre eles, decide tomar a posse da situação e se infiltrar na coelheira enquanto os outros membros de sua tribo fugiram devido aos ataques. Só quero deixar bem claro que existem muitos outros fatores que fazem com que esse encontro das duas tribos ocorram, mas não quero que o excesso de spoiler estrague a experiência.

E assim com o plano em mãos, Bigwig e Hazel fazem o que for possível para enfrentar essa segunda tribo repleta de personagens com a maldade estampada em seus designs. Esse último ato do filme tem muitas cenas sangrentas. Lembro da primeira vez que ouvi falar sobre esse filme, foi uma postagem aleatória em um blog, sabe quando você vê uma thumbnail e decide ver o que era aquilo? A thumbnail não era nada menos do que o próprio General Woundwort, e na hora eu pensei: isso não pode ser um desenho

 

Lógico que a pessoa que fez o post exagerou um pouco no sensacionalismo. Ele não é aquele filme que vai te provocar terror psicológico e dizer que sua infância acabou, porque ele simplesmente não é o filme infantil apesar de sua arte. Pode fazer qualquer busca a respeito no google, muita gente “meteu o pau” na obra por seu nível de violência. Mas pera lá, não é o ciclo da vida da natureza? Os mais fortes e carnívoros se alimentam dos mais fracos e herbívoros. Então já digo desde já, o butthurt comeu solto gratuitamente. Independente disso, não tiram a “magia” da obra, porque desde que o momento em que você passa a assimilar o comportamento das “coelheiras” com a nossa sociedade você passa a refletir do quão selvagens também somos. Como citei antes, existe a problemática do homem, temos os fazendeiros que caçam animais e atiram sem dó, temos os que fazem armadilhas para possivelmente se alimentarem dos coelhos, e claro, a construção que vem tomando conta da natureza aos montes.

 

O ódio, a vingança, o autoritarismo são fortíssimos neste último ato do filme. Extremamente recomendadíssimo. Não sei dizer se no livro seja bem menos nítido suas questões de violência, embora com seu alto número de vendas, creio que na época ele tenha dado muito pouco problema devido ao seu visual gráfico, que trata a morte de uma forma mais explícita e realística. Eu lembro que quando eu vi Bambi pela primeira vez ainda na creche, eu não tinha entendido muito bem o que aconteceu exatamente com a mãe dele, o que gera esse diferencial muito forte em Watership Down. Com a obra da Disney, temos a assimilação, o som de tiro se fez, e a mãe dele nunca mais voltou, aqui no Watership temos sangue e feridas expostas, mas como eu disse, sem o sensacionalismo a nível Happy Tree Friends como as outras resenhas e resumos que li se trataram. Também acredito que as crianças de hoje em dia talvez não se impressionem tanto, pois hoje elas já possuem um acesso a informação maior do que as crianças de 20 anos atrás.

Eu não vou dar uma nota aqui, porque não sou crítico de cinema, mas deixo a dica para você assistir. O começo do filme narra a lenda do primeiro coelho que foi criado pelo “deus” da mitologia deles, e já deixa bem claro que os carnívoros nasceram com o propósito de se alimentar dos mais fracos, então eu deixo aqui o convite para assistirem o filme e comentarem aqui no site o seu ponto de vista sobre o visual da obra, se realmente a crítica negativa é verdadeira, ou se não passa só de frescura exagerada.

Trailer:

“O mundo todo será seu inimigo, príncipe de mil inimigos. E quando o pegarem irão mata-lo, mas primeiro precisam pega-lo . Cavador, ouvidor, corredor. Príncipe da coelheira veloz. Seja astuto e cheio de truques e seu povo nunca será destruído.”

LIVRO DE:       Richard Adams
DIRETOR:        Martin Rosen
ROTEIRISTA: Martin Rosen
TRILHA:           Angela Morley

Por Chris Stark

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