Belíssima embalagem, raso conteúdo

Em minha crítica sobre Dunkirk, o pretensioso filme de guerra de Christopher Nolan, indicado a oito Oscars e vencedor de três (apenas nas categorias técnicas: Edição de Som, Mixagem de Som e Montagem), eu escrevi o seguinte: “Toda essa grandiloquência técnica e narrativa, contudo, parece insuficiente para dar ao longa o ingrediente mais importante que toda boa obra cinematográfica precisa ter: emoção.” Dois anos depois, esta frase também se aplica perfeitamente à 1917, pretensioso filme de guerra de Sam Mendes, indicado a dez Oscars e vencedor de três: Fotografia, Mixagem de Som e Efeitos Visuais.

Quando criança, o pequeno Sam ouvia de seu avô, o escritor Alfred Mendes, várias histórias sobre a Primeira Guerra Mundial, na qual lutou. Depoimentos que serviram como inspiração para, décadas depois, originarem um roteiro, co-escrito pelo neto, hoje cineasta oscarizado (por Beleza Americana) em parceria com a escocesa Krysty Wilson-Cairns. DETALHE LIMITADOR: o diretor quis levar esta empreitada às telonas em um longa que simulasse um único plano sequência contínuo do início ao fim.

O DIRETOR SAM MENDES DIRIGINDO SEUS ATORES DEAN-CHARLES CHAPMAN E GEORGE MACKAY.

Tecnicamente, o resultado final se mostra mesmo primoroso, com a câmera acompanhando em “tempo real”, e em uma “única tomada”, cada passo (literalmente) dos personagens principais, suas andanças pelos campos abertos, trincheiras, casas abandonadas, túneis, acampamentos, mais trincheiras e mais campos abertos. Todavia, embora tenha caprichado tanto com o FORMATO de seu filme, o cineasta não se atentou com o mesmo esmero ao ingrediente essencial para toda boa história: EMOÇÃO.

A trama, afinal, acompanha dois cabos do exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial que recebem a missão de cruzarem as linhas inimigas e alertarem outro batalhão a não realizarem o ataque surpresa que estavam planejando contra os alemães, pois estes já estavam cientes e preparados para tal ofensiva e o confronto direto provavelmente culminaria nas mortes de muitos daqueles 1.300 soldados, inclusive, possivelmente, o irmão de um dos cabos. História muito simples, e não há nenhum problema em sua simplicidade. Se bem contada, emocionaria todo e qualquer expectador envolvido na trama. É aqui que entra o detalhe limitador acima citado. A obrigação auto imposta do diretor em priorizar o plano sequencia faz com que não tenhamos cenas contextualizantes o suficiente para nos empolgarmos e, pior, nos importarmos com o que está sendo mostrado. Ao final da jornada, teremos visto apenas a caminhada dos cabos, com seus percalços, para a entrega de uma mensagem.  Uma história que poderia até ser empolgante, mas que foi contada mecanicamente, envolta por uma embalagem de luxo.

Ao assistir à projeção, o interesse maior acaba ficando mesmo em tentar descobrir onde estão os cortes do filme. Alguns ficam evidentes, como, por exemplo, quando uma árvore ou uma parede atravessa a tela, ou quando a imagem escurece, nem que seja por alguns milésimos de segundo. Outros momentos, porém, se mostram verdadeiramente intrigantes, como a surpreendente sequência envolvendo a queda de um avião. Já a justificativa encontrada pela produção para a passagem do tempo, que começa de dia, atravessa a noite e retoma o dia seguinte, é menos sutil, com um longo período, cerca de 20 segundos, de tela completamente escura, quebrando a proposta plano sequencial que havia sido estabelecida até então e, de certa forma, quebrando sua “magia”.

A fotografia de Roger Deakins (que finalmente ganhou seu merecido Oscar por Blade Runner 2049, após 14 indicações) é outro desafio, e um esplendor para os olhos, pois as mudanças de cenários ocorrem tão organicamente que nos pegam de surpresa, nos levando a contemplar, durante os planos sequência, o céu ensolarado, o crepúsculo avermelhado, a noite iluminada pelas chamas de fogo e o amanhecer alaranjado. Os movimentos de câmera, por sua vez, são mesmo ousados, saindo de trás dos atores para filmá-los de frente e, logo em seguida, retomando a perspectiva dos personagens, sempre de uma maneira suave e orgânica. E a montagem? Que primor de trabalho! Como engendrar a junção de tantas cenas diferentes fazendo-as parecer que foram filmadas continuamente? Durante vários trechos do longa, nos vem a pergunta: “Como eles fizeram isso?”

Os dois cabos andarilhos são interpretados pelos não tão conhecidos (pelo menos até agora) George MacKay e Dean-Charles Chapman e, durante a caminhada, vemos a breve participação de rostos famosos, entre eles Dr. Silvana e Dr. Estranho (Mark Strong e Benedict Cumberbatch). E, ao final da caminhada, parece que percorremos à pé quilômetros e quilômetros, que nos deixaram maravilhados com belas (e não tão belas assim) imagens, mas extremamente exaustos com uma história que, ao seu final, não trouxe a empolgação pretendida. 1917, assim como seu “colega de gênero” Dunkirk, se mostra, portanto, mais um filme de guerra embrulhado com uma belíssima embalagem, porém, de conteúdo raso e pouco emocionante.

1917. Reino Unido/EUA, 2019, 1h 59min. Direção: Sam Mendes. Com: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Andrew Scott, Richard Madden, Colin Firth, Mark Strong, Benedict Cumberbatch. Drama de Guerra. Universal.

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