O Farol é um conto náutico ensandecido, embriagado e horripilante. No limite entre a loucura e o sobrenatural, Pattinson, Dafoe e Eggers constroem uma obra de arte complexa e rara de se encontrar.

 

 

“A loucura humana é, muitas vezes, uma coisa astuta e felina. Quando você pensa que ela se foi, na verdade, pode apenas ter se transformado em algo mais sutil.” Assim escreve Herman Melville em seu romance Moby Dick, um dos livros mais famosos da história e uma das narrativas marinhas mais influentes de todos os tempos.

A história do homem obcecado por um “monstro marinho” ilustra bem este tipo de trama que tem no mar um de seus principais elementos. Profundamente inspirador, o oceano, por muito tempo, guardou o mistério do desconhecido. Seja no limite horizontal ou vertical, o homem olhava para a imensidão sem saber o que encontrar – e ainda não sabemos, já que em milhares de anos de evolução tecnológica avançamos mais na exploração espacial do que na da Fossa das Marianas, por exemplo.

Por isto é natural que, dentro da literatura, tenha surgido o gênero da ficção náutica. Em especial, das histórias voltadas ao terror e ao horror. Romances e contos que aproveitam do imagético e vivência marinha para criar obras com forte caráter psicológico e emocional.

E este é o clima ideal para o diretor Robert Eggers estruturar mais um “terror de época”. Voltando para a tela grande depois do controverso (e, acrescento, incompreendido) A Bruxa, Eggers retoma em O Farol alguns de seus objetivos anteriores: construir um filme do gênero que saia de suas convenções mais comuns (ou melhor reconhecidas por parte do grande público), usar dos símbolos para abrir as camadas de interpretação de sua obra e explorar o incomum para potencializar a narrativa e a atuação de seu elenco. O diretor mostra mais de sua assinatura, sua maneira de pensar a miss-en-scéne e seu olhar metódico ao construir histórias em um filme que é completamente diferente de seu trabalho anterior. Há, porém, algo importante a ser relacionado: se A Bruxa pode ser interpretado como um olhar atencioso ao feminino, O Farol pode ser relacionado com o masculino.

No longa vemos a chegada de Ephraim Winslom (Robert Pattinson), rapaz que inicia suas funções de auxiliar em um farol que está sob os cuidados de um velho marinheiro, Thomas Wake (Willem Dafoe). Ambos enfrentam a natureza e o isolamento enquanto tentam manter a sanidade. O Farol é, assumidamente, um destes contos náuticos. Inspirado justamente por obras da segunda metade do século XIX e início da primeira metade do século XX, Eggers entrega um filme que reúne um caldeirão de referências artísticas que se colocam ao redor da proposta de reproduzir a estética e linguagem dos filmes mudos.

 

A dupla Pattinson e Dafoe possuem um ótimo trabalho individual de atuação – mas é quando estão em relação que se tornam ainda mais potentes.

O diretor realiza a escolha perfeita de usar câmeras e lentes utilizadas de 1910 a 1930, e não equipamentos modernos e efeitos de pós-produção que apenas mimetizem os filmes da época. O preto e branco que vemos é, portanto, o mesmo que vemos nas primeiras produções cinematográficas. Isto dá a O Farol um charme de época, que o aproxima de obras do Expressionismo Alemão e do cinema soviético. O trabalho do Diretor de Fotografia Jarin Blaschke (A Bruxa) também é fundamental para tal imersão pois consegue entender a quantidade de luz necessária para captar o que é desejado (afinal, para esta aparelhagem é necessário dosar de forma diferente a luz que será registrada, pois tendem a captar imagens muito mais escuras). Também vemos em O Farol a reprodução de efeitos utilizados em tais produções, como focos específicos para iluminar objetos ou partes do corpo.

Outra escolha certeira é a razão de aspecto (o “tamanho da imagem”, a divisão da altura pela largura do frame). Em O Farol, a proporção é de 1:19:1, um formato quase quadrado. Além de colaborar para tornar o filme ainda mais similar com os da época, fugindo da tela retangular a qual já estamos acostumados, esta razão de aspecto colabora para a instituição dos sentimentos de claustrofobia, aprisionamento e angústia.

Em cena, o uso do preto e branco também se traduz em dualidade e conflito. A fotografia e o design de produção – dos mais competentes do ano de 2019 – são vitais para tornarem O Farol um filme frio e angustiante, potencializando a tensão e colaborando diretamente para a construção do terror. Sim, O Farol é um longa do gênero, por mais que não entregue um terror convencional. Mesmo aqueles que já esperam uma narrativa incomum e sem a presença constante de recursos como o jumpscare, tal qual A Bruxa, podem ficar frustrados com a nova proposta de Eggers. Alguns até poderão afirmar que O Farol não é um filme de terror, sendo mais próximo do suspense ou mesmo do drama. Porém, como já citei anteriormente na minha crítica de Midsommar, o que faz de O Farol um longa de terror e horror é justamente como a construção da tensão e da repulsa se dá ao longo dos 109 minutos de sua duração – e isto não vem desacompanhando do dramático e até trágico que a obra nos propõe.

 

A natureza da narrativa é colocada em dúvida a todo tempo. Não há elementos que definam O Farol, mas corroboram para as diferentes interpretações que o espectador pode ter. Nunca sabemos, de fato, se a loucura ou o sobrenatural – ou ambos – agem sob os personagens.

A trama, em si, é bem simples. É bem fácil recontar a história de O Farol. A eficácia do roteiro de Eggers e Max Eggers está no foco aos diálogos, na construção da relação entre os personagens e no estabelecimento de diferentes caminhos de interpretação (ou mesmo de abstração) que enriquecem a(s) leitura(s) de seu trabalho. Em uma narrativa que utiliza alguns recursos bem comuns ao Teatro do Absurdo (embora muito mais sutil, é claro), o longa nos apresenta imagens, repetições, atemporalidade e incomunicabilidade. Para tal, Eggers cruza o limite entre o humano e o mitológico (inserindo referências a Prometeu e Proteu, criaturas míticas, superstições e até acenos a monstros lovecraftianos) e coloca o protagonista em descrédito a todo instante. Assim, é possível acompanhar o longa levando em conta seu aspecto sobrenatural ou psicológico – ou mesmo ambos. Por fim, acrescenta-se o álcool, que auxilia ainda mais na amálgama destes diferentes mundos.

A montagem do longa, realizada por Louise Ford (Bad Education, Siberia), é grande responsável pelo descontrole e loucura presente em O Farol, e tem forte inspiração nos primeiros experimentos de montagem do cinema russo, em especial, dos cineastas Lev Kuleshov e Serguei Eisenstein. Não é exagero dizer que, em alguns momentos, O Farol inunda seu espectador com imagens ora aparentemente desconexas ou oníricas buscando reproduzir o Efeito Kuleshov. O efeito Kuleshov é, em resumo, um efeito de montagem que une cenas diferentes e estimula a capacidade mental do espectador de dar significado ao que está sendo mostrado. E Eggers abusa de imagens e símbolos complexos. Destes símbolos expostos, temos desde livres representações de pinturas (como Hypnose, de Sascha Schneider) a momentos de outros filmes (como Carnival of Souls). O objetivo é causar a estranheza necessária no espectador e força-lo a refinar a busca por sentido – e não coloco aqui “sentido” apenas como compreensão, mas também como sensorialidade.

Todas as possibilidades simbólicas de O Farol são a grande beleza do filme, porém, também o que o afasta de parte da audiência. Sem respostas definitivas e aberto a tantas interpretações, os espectadores que esperam por uma experiência mais linear ficarão enfadados. Ou, aqueles que não tiverem paciência para tecer significados, ou mesmo que se sintam desconfortáveis com tantas possibilidades interpretativas, poderão determinar O Farol como um filme preguiçoso. Ambos os sentimentos são inteligíveis. Porém, recomenda-se que o público passe pela experiência de assistir O Farol pois, no fim, tudo se resume a experiência cinematográfica proposta – que é rara e única.

Em complemento ao apuro visual de O Farol, há um trabalho sonoro extremamente bem realizado e que dita ativamente a relação do espectador com o longa. Somos constantemente acompanhados pela trilha sonora marcante de Mark Korven (A Bruxa, The Terror) e por sons diegéticos (isto é, que ocorrem dentro da ficção do filme) que trazem o incômodo ambiente do farol. O som do mar, das pedras, das gaivotas, da buzina de neblina e de cada movimento realizado pelos atores sufocam a audiência, que tem raros momentos de silêncio total – igualmente tensos e estressantes.

 

Eggers é matemático em sua composição. O grande acerto, em especial, é quando consegue construir imagens que remetem diretamente a lógica dos cineastas das décadas de 10 a 40.

Aqueles que se deixarem atravessar pelos símbolos de O Farol, poderão ter uma maior diversão com o filme – durante e depois de sua exibição. Os personagens do filme podem ser vistos de diferentes formas, e como diferentes representações. Todos os elementos e acontecimentos podem corroborar leituras distintas. A luz, um dos principais temas do filme, pode ser vista como o conhecimento, como o sexo, como o divino, como o maligno ou… só como uma luz mesmo. A água, um símbolo do subconsciente mas também visto como algo sagrado, puro e transformador, pode tanto ser interpretada de um ponto de vista que busca priorizar o aspecto psicológico do filme como também do sobrenatural. O farol pode ser desde um pênis ereto até a mente dos próprios personagens. Os conflitos podem ser passado e futuro, homens e deuses, o masculino contra o masculino, instinto e razão, sanidade contra loucura… E por aí vai. O único elemento feminino assumidamente presente no filme representa tanto a busca pelo sexo oposto (ou, pela anima) como o medo, o pavor de ser devorado. Cada informação apresentada pode ser destrinchada, se assim o espectador desejar.

Mesmo que o espectador não tenha aproveitado a proposta do longa como um todo, ainda resta em O Farol uma interessante oportunidade de apreciar grandes trabalhos de atuação. Robert Pattinson e Willem Dafoe são a grande alma do filme. Dafoe é um dos atores mais interessantes em atividade hoje, sempre escolhendo projetos desafiadores e artisticamente relevantes. Já Pattinson, muito marcado por Crepúsculo, também tem escolhido seus trabalhos de forma mais estratégica e mostrado seu potencial. Em O Farol entrega seu melhor trabalho até então, conseguindo segurar muito bem frente a Dafoe e construindo uma excelente gama, que vai da sanidade até o limite da insanidade de forma crível. Os personagens que vemos em O Farol são muito complexos, repletos de movimentos que ululam entre a razão, delírio, embriaguez, ódio, felicidade e, por vezes, exigem a pesquisa de emoções que não podem ser facilmente identificadas. Apenas o trabalho individual de cada ator não conseguiria manter a proposta de O Farol, a dinâmica mostrada entre Pattinson e Dafoe é de vital importância para isto. Ora antagônicos, ora companheiros, Winslow e Wake formam um par interessante, levados pelo instinto e pulsando morte e erotismo. Curioso notar que Thomas, ou Tomé, remete ao São Tomé bíblico, um símbolo da descrença e de um homem que “precisou ver para crer” e é o santo padroeiro dos gêmeos.

 

 

Enfim…

 

 

O Farol é um olhar vertiginoso sobre… homens em um farol. Robert Eggers constrói um trabalho repleto de leituras e símbolos, que parte do tema do isolamento para narrar um terror angustiante. Com qualidade técnica rara e se colocando ao desafio de mimetizar produções do início do século XX, é uma obra de arte a ser apreciada. Com O Farol, Eggers entrega mais um ótimo filme de terror – gênero que tem revelado cineastas brilhantes – e se firma como um dos diretores mais promissores da última década.

Bem verdade que O Farol não agradará aqueles que buscam um terror habitual. Mesmo aqueles que gostaram do trabalho anterior de Eggers e entrarem no cinema preparados para ver uma obra diferente podem acabar se frustrando com o longa. Aos que não conseguirem aproveitar a proposta de O Farol resta apreciar o grande trabalho de atuação da dupla Pattinson e Dafoe que, por si só, já vale a experiência de ir ao cinema.

O Farol é uma ficção náutica fria e amarguram-te. Uma fábula de embriaguez, loucura e misticismo. Mas é justamente na sutileza em meio ao caos que reside a beleza do longa. Nos momentos de pura humanidade é que O Farol se torna, de fato, horripilante.