Ótima diversão descompromissada, focada em sua tecnologia  

Duas vezes vencedor do Oscar de Melhor Diretor, por O Segredo de Brokeback Mountain, de 2005, e As Aventuras de Pi, de 2012, o versátil cineasta taiwanês Ang Lee há tempos é antenado nas evoluções tecnológicas do cinema e, consequentemente, na utilização desses recursos a serviço da história que se propõe a contar, sempre com toques filosóficos. Foi assim com O Tigre e o Dragão, de 2001, (vencedor de quatro Oscars, entre eles Melhor Filme Estrangeiro), também com aquele controverso e incompreendido mergulho na análise psicológica de seu protagonista digital em Hulk, de 2003, sobre o qual já falamos detalhadamente, como você pode conferir aqui, e ainda com aquele já citado (e belíssimo) longa quase todo ambientado em uma piscina com chroma key azul, digo, no meio do Oceano Pacífico, em que pudemos acompanhar a jornada de um jovem e um tigre (quase todo feito em CGI) em um barco salva-vidas.

Ang Lee está de volta com Projeto Gemini, obra totalmente concebida em 3D+ HFR (High Frame Rate, referente à quantidade de frames por segundo), uma evolução do 3D que conhecemos, e que há muito tempo já não empolgava mais, tendo sido banalizado por conta de produções filmadas convencionalmente e só depois convertidas ao formato, gerando pouca ou nenhuma diferença no resultado final. O 3D+ nos traz uma imersão e uma profundidade realmente maiores, e ainda apresenta a projeção em 60 frames por segundo, suplantando os tradicionais 24 fps que ainda tem sido padrão na indústria cinematográfica. A trilogia O Hobbit, iniciada em 2012, foi filmada por Peter Jackson em 48 fps, e quem teve a oportunidade de conferir na telona constatou a diferença. O andamento das imagens, a princípio, causava certo estranhamento aos olhos, remetendo à produções audiovisuais televisivas como novelas, por exemplo, mas, no decorrer da projeção, o cérebro ia “se acostumando” com a nova velocidade proposta. Um dos motivos do formato não ter se tornado padrão foi a resistência das redes de cinemas em investir na nova tecnologia. Contudo, Ang Lee e a Paramount insistem na ideia, que já ressurge aprimorada, projetando Projeto Gemini não em 48, mas em 60 fps, culminando em um 3D visivelmente mais profundo. Será que agora a moda pega?

Os atributos visuais de Projeto Gemini não param por aí, pois ainda há a atração principal, seu protagonista, o astro Will Smth, com seus 51 anos, contracenando com… Will Smith, rejuvenescido digitalmente graças a um avançado CGI somado ao motion capture com a performance do ator, nos apresentando mais uma notável evolução na reconstrução digital de uma pessoa, neste caso, cerca de 30 anos mais jovem do que seu exemplar verdadeiro. Veja abaixo um featurette explicando rapidamente a criação do Will na faixa dos 20 anos. A equipe responsável pelo trabalho teve à disposição um vasto arquivo de imagens do “Smith anos 90” para poder recriar com o máximo de fidelidade sua cópia jovem, que, de fato, impressiona pela fluidez de suas expressões corporais e faciais. Ainda há um pequenino desajuste em alguns detalhes do rosto que nos fazem perceber que estamos diante de um versão computadorizada de um ser humano, mas a tecnologia está avançando a passos largos nesta direção, e não deve demorar para assistirmos à filmes com personagens digitais visualmente “100% humanos”, de forma que não percebamos a diferença, o que abre brecha (e também discussões éticas) para trazer de volta às telonas com o máximo de fidelidade todo e qualquer ator ou atriz que lá já esteve no passado, ou qualquer outra personalidade da vida real, como foi feito, por exemplo, ainda sem tanta riqueza de detalhes, com a queridíssima Carrie Fisher como a Princesa Léia no auge de sua beleza e juventude em Rogue One: Uma História Star Wars, ou com Sean Yung, recriada igualmente jovem e bela, como a icônica replicante Rachael, em Blade Runner 2049.

Mas, afinal, qual é a historia de Projeto Gemini? Rasa, simples e banal, envolvendo Henry, um assassino profissional à beira da aposentadoria surpreendido por um agente que está insistentemente tentando eliminá-lo. Quem é ele? Por que quer mata-lo? Como consegue prever seus movimentos? Por que se parece tanto com ele, embora seja mais jovem? Seria o filho que nunca soube que teve? Qual o segredo por trás de tudo isso? O que, afinal, está acontecendo? Assista e conhecerá o Projeto Gemini, responsável pela clonagem de um expert em atividades de campo, porém, com o diferencial de o clone se encontrar no auge de sua juventude e vigor físico, sendo, portanto, ao menos em teoria, superior ao original. Entre a experiência e a juventude, quem se sairá melhor?

Como deu para perceber, uma trama de ação básica, com toques de espionagem e ficção científica, envolvendo clonagem, tema que o roteiro em nenhum momento se aprofunda, até porque, definitivamente, não é essa a proposta. O foco está em seus atrativos técnicos, e nesse quesito o filme se dá muito bem. Destaque para a sensacional sequencia de ação na metade do longa, envolvendo Smith e “Smith” em uma alucinada perseguição de motos em alta velocidade, com as câmeras nos levando a acompanhar esse embate como se, de fato, estivéssemos vendo tudo pessoalmente, tamanha a sensação proporcionada pelo 3D+ HFR, que, a princípio, foi aprovado. Resta saber como será o desempenho de Projeto Gemini nas bilheterias. Além dos “Smiths”, também compõem o elenco Clive Owen, Mary Elizabeth Winstead, a futura Caçadora de Aves de Rapina, e Benedict Wong, o Wong (!) de Doutor Estranho.

Ang Lee, desta vez, deixou sua tradicional narrativa poética e filosófica de lado para investir em uma história de ação, que se assume como básica, tendo a tecnologia como seu maior atrativo. Nas suas duas ou três cenas aquáticas, é praticamente impossível não mergulhar junto (trocadilho irresistível), enxergando as bolhas de água bem à nossa frente. Igualmente imersivas são as sequencias envolvendo chamas de fogo, saindo da tela tão naturalmente quanto aquelas algas, ou seja lá o que fossem, vistas em Avatar, filme que 10 anos atrás revitalizou o 3D e que, na época, realmente nos impressionou. Se este 3D+ HFR apresentado em Projeto Gemini já constitui uma notável evolução no formato, o que será que “o mestre” no assunto James Cameron está preparando para Avatar 2, 3, 4, 5… Veremos! Enquanto isso, Projeto Gemini, além de ser um aperitivo do que está por vir na imersão cinematográfica, é uma ótima diversão descompromissada!

Projeto Gemini (Gemini Man). EUA, 2019, 1h 57min. Direção: Ang Lee. Com: Will Smith, Mary Elizabeth Winstead, Benedict Wong, Clive Owen, Ralph Brown, Douglas Hodge, Linda Emond. Ação/Ficção Científica. Paramount.

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