Curiosamente, 2019 é o ano em que duradouras sagas cinematográficas chegam ao fim. Choramos e nos emocionamos com Vingadores: Ultimato, o mundo nerd está em polvorosa para a chegada, em Dezembro, de Star Wars: Episódio IX, e agora… nos deparamos com a produção que encerra 19 anos de mutações super-heróicas no cinema, X-Men: Fênix Negra, cuja trama, por coincidência (ou não), reproduz, em essência, a de X-Men 3: O Confronto Final, filme que fechou a primeira trilogia e é quase unanimemente tido como o pior de todos feitos até agora envolvendo os heróis mutantes. Seria este um presságio?

Fato é que este novo (e último pela Fox) episódio envolvendo os alunos e professores da tão famosa Escola Para Jovens Superdotados, embora seja moderadamente satisfatório como uma história fechada, não transmite em momento algum qualquer sensação de finitude, trazendo um desfecho simples, genérico, convencional. É óbvio que não esperávamos por algo épico, contudo, a (segunda) descontinuidade das obras cinematográficas desses heróis que será dada daqui para frente parece ter sido completamente ignorada pelos realizadores, como se eles quisessem deixar escrito, nas entrelinhas, que talvez quisessem continuar, algo que sabemos que, após o Mickey ter atacado novamente, não vai acontecer. Este filme não foi pensado como um final de saga e, a julgar pelo resultado final visto em tela, tampouco fora modificado após a compra da Fox pela Disney, exceto, talvez, pela ausência de uma cena pós-créditos. O “Senhor do Universo”, Kevin Feige, por sua vez, inteligente que é, vai querer brincar de mutantes na Marvel Studios a partir do zero! Então, qual a lembrança que ficará do final da cinessérie X-Men na Fox? A de um fechamento incompleto.

Nossa heroína, Jean Grey (a bela Sophie Turner, que, com Game of Thrones, amargou neste mesmo ano de 2019 mais um final de saga que fez muitos torcerem o nariz), após uma missão de salvamento no espaço junto com seus colegas, acaba absorvendo uma misteriosa energia com a qual ganha um upgrade em seus poderes, mas não sem que haja efeitos colaterais, que trazem à tona dolorosas lembranças “apagadas” de seu passado que, por sua vez, a fazem extravasar, no plano físico, toda a sua fúria interior, no melhor estilo “Let It Go”, porém, com consequências dolorosas para todos à sua volta…

“De quem é esse sangue?”

Surgindo no meio da trama, Erik Lehnsherr, o Magneto do (quase) sempre formidável Michael Fassbender, traz consigo aquela já conhecida faceta utópica de sua personalidade, querendo apenas viver em paz com os de sua raça. Habitando um lugar distante (em nenhum momento Genosha é mencionada), e curtindo um isolamento coletivo voluntário com seus seguidores, ele recebe a inesperada visita de nossa agora desnorteada heroína que, com ela, além de incidentes destrutivos, traz um inquietante detalhe em sua vestimenta, que gera uma pergunta, e cuja resposta o colocará mais uma vez, inevitavelmente, no caminho da vingança, reencontrando no percurso seu velho amigo, Charles Xavier, o Professor X (vivido sempre com muita integridade pelo multifacetado James McAvoy). Xavier, logo no início da trama, é mostrado como um sujeito surpreendentemente ambíguo, e que conseguiu, a seu modo, atingir seu objetivo, conquistando o tão almejado respeito da sociedade e até do governo norte-americano! Mas é obvio que, como já foi dito acima, algo dá errado (COMO SEMPRE), e basta UMA imprudência, gerada por uma desorientada Jean, para que tudo vá por água abaixo novamente, e os anos de credibilidade conquistados por Xavier e seus pupilos caiam por terra, como um castelo de cartas.

Scott Summers, o Ciclope (Tye Sheridan), em meio à profusão de sensações pelas quais passa sua amada Jean, faz o que pode para ajudá-la, assim como os demais companheiros da equipe: Kurt Wagner, o Noturno (Kodi Smit-McPhee), Ororo Munroe, a Tempestade (Alexandra Shipp), Peter Maximoff, o Mercúrio (Evan Peters), Hank McCoy, o Fera (Nicholas Hoult) e… Raven, a Mística (Jennifer Lawrence). Em meio ao rastro de destruição deixado por Jean (com sequências de ação bem executadas), a trama ainda achou espaço para incluir a alienígena Vuk (Jessica Chastain) e uma meia dúzia de comparsas, todos ET’s de visual preguiçosamente genérico, cujos interesses têm a ver com a força que se apoderou de Jean. Com exceção de Fassbender e McAvoy, todo o elenco parece, infelizmente, estar cumprindo com seus contratos, e chega a ser constrangedor ver Jennifer Lawrence, no papel de líder de campo dos X-Men, dizer suas falas o tempo todo com aquela cara de “não quero usar essa maquiagem azul nunca mais”.

A narrativa se mantém sisuda do início ao fim, não se permitindo mais do que duas ou três gags, e assim a trama caminha para um desfecho… desprovido de emoção. O espectador que nunca foi tão atrelado à franquia, SE não for muito exigente, poderá até se satisfazer com uma razoavelmente boa trama de ação com pequenas doses de suspense aqui e ali e pitadas de ficção científica, além dos sempre relevantes questionamentos acerca do preconceito, identidade própria, valorização, repressão e exteriorização de sentimentos e emoções.  Ponto para o diretor e roteirista Simon Kinberg que, desde o primeiro X-Men, sempre esteve envolvido com os mutantes na telona. Contudo, quem é fã, literalmente “já viu esse filme” e, embora X-Men: Fênix Negra seja substancialmente melhor do que X-Men 3: O Confronto Final, não traz nenhum novo conceito que já não tenha sido mostrado nesse ou em outro dos longas anteriores.

Não fosse uma menção aos “sobreviventes da Primeira Classe”, uma conversa na cozinha onde uma importante personagem surgiu pela primeira vez, um jogo de xadrez entre dois velhos amigos, e mais alguns diálogos, enquadramentos e referências discretamente espalhados no decorrer da projeção, não haveria nada indicando que este é um encerramento de franquia, que está fechando uma fase composta ao todo por 12 longas-metragens (alguém ainda acredita que Novos Mutantes um dia vai sair?), que tiveram seus altos e baixos e cujo primeiro, X-Men, de 2000, contribuiu decisivamente para a consolidação do gênero filme de super-heróis no cinema, além de ter nos proporcionado ao longo dessas duas décadas algumas obras-primas, entre elas Logan. A título de curiosidade, X-Men: Fênix Negra é o primeiro (e único) longa da cinessérie que não tem nenhuma participação de seu personagem mais famoso…

ATENÇÃO: o próximo parágrafo não traz um spoiler, mas dá uma pista do que acontece no epílogo. Se não quiser saber de NADA, pule para o último parágrafo.

Como se já não bastassem todas as incoerências de roteiro que vimos ao longo desses 19 anos de “saga”, ainda temos, como epílogo, uma absolutamente improvável e totalmente inverossímil aposentadoria precoce de personagens que, vejam só, parecem estar tomando café na calçada do mesmo restaurante em que Alfred viu (ou imaginou) Bruce Wayne e Selina Kyle, também supostamente aposentados, ao final de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o que me leva a querer sugerir ao proprietário de tal estabelecimento que mude seu nome para algo como Cafeteria dos Superseres Encostados!

O (nem tão) aguardado grand finale da fase Fox dos X-Men é, por fim, um encerramento de franquia insosso, como se Cristal, a cantora pop mutante, estivesse fazendo um agradável pocket show para seus colegas em meio à relva, disparando seus belos “fogos de artifício” e, de repente, sumisse de cena para nunca mais voltar e, pior, ninguém se lembrar de tê-la visto após ter assistido ao filme. Triste. Kevin Feige, agora é com você!

X-Men: Fênix Negra (Dark Phoenix). EUA, 2019, 1h 53min. Direção: Simon Kinberg. Com: Sophie Turner, James McAvoy, Michael Fassbender, Tye Sheridan, Nicholas Hoult, Jennifer Lawrence, Evan Peters, Alexandra Shipp, Kodi Smit-McPhee e Jessica Chastain. Ficção Científica/Ação. Fox.
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