Texto com spoilers do episódio s08e04 e anteriores

O rei da noite está morto. O inverno acabou. O que falta nesse momento para Game Of Thrones ser concluído é a resposta de uma única questão: quem ficará com o trono de ferro? “Nós os derrotamos mas ainda temos que lidar com nós mesmos”, diz Tyrion em determinado momento do quarto episódio desta ultima temporada. Passado o inimigo em comum, ainda em meio a comemoração pela vitória, as tensões e problemas mundanos voltam a Winterfell.

Sabe quando a novela chega na última semana? Todos os núcleos vão se acertando, menos o principal porque algo precisa sobrar para o último capítulo. É o que vemos aqui com Tormund, Gendry, Sam e outros personagens finalmente encontrando seus supostos finais felizes. Por mais que esse tenha sido um bom episódio, essa decisão de desfecho (e algumas outras) me incomodou demais. A solução encontrada para Ghost, por exemplo, além de completamente desalmada,  é completamente incoerente com tudo o que nos foi ensinado até o presente momento sobre os lobos gigantes que acompanhavam os Starks. E porque não mataram Missandei imediatamente? Por mais que seja amiga de Daenerys, Euron Greyjoy não poderia saber disso ou mesmo seus homens. Teria sido mais coerente a cena da execução se fosse um personagem com valor político na trama, como Tyrion.

Miga, ele está olhando, disfarça - a amiga:

Enquanto isso, a tensão entre Jon e Daenerys cresce com a mãe dos dragões parecendo muito pouco a personagem das temporadas anteriores e mais com a filha do Rei Louco.  Como eu previ no início dessa oitava temporada, a tendência parece ser transformar Daenerys em vilã o que, convenhamos, é a saída mais fácil para forçar a predileção por Jon. Apenas um problema: nem Jon Snow acredita nele como rei.  As falas de Varys durante a conversa com Tyrion parecem que são uma tentativa dos roteiristas de justificar suas próprias escolhas. Até o final da série teremos mais momentos como esse, com todos os personagens de repente percebendo que a pessoa menos carismática possível e que foi literalmente morta na ultima vez em que tentou ser líder de alguma coisa é melhor para apaziguar os sete reinos.

Mas então você quer que Daenerys seja rainha? Nesse exato momento eu quero que ela meta fogo em Porto Real e nesses conselheiros traíras dela. Brincadeiras a parte, acredito que a essa altura da trama seria mais interessante se os roteiristas parassem de falar em quem deve sentar-se no trono e sim se o trono ainda deve existir. Game Of Thrones nunca foi uma série clichê e, portanto, essa conclusão seria mais ousada e surpreendente do que qualquer outra. Mas é claro, isso não vai acontecer.

Achei que já tinha abandonado todas as minhas expectativas sobre o desfecho dessa série no final da sétima temporada mas esse episódio me fez ver que não, ainda restava uma esperança de que houvesse um fim coerente e digno. Acho que esse é o melhor episódio da temporada até o momento, por conseguir criar e manter tensão e expectativa mesmo quando pensávamos que já estava tudo resolvido. E penso que essa temporada está anos-luz melhor do que a sétima, que é um completo desastre.

Burn them all, Cersei

Ainda assim, não posso deixar de lamentar essa aparente predileção dos autores em sempre tomar o caminho mais fácil para resolver seus problemas do roteiro. Personagem agem em total dissonância de seu prévio comportamento e as cenas vão acontecendo sem qualquer coerência interna, apenas para levar roteiro onde os roteiristas querem. A série construiu toda uma tradição em torno de perverter as expectativas, ser algo além de apenas “mais uma história de cavaleiros e dragões” e parece que os roteiristas esqueceram disso (ou simplesmente não estão nem aí).

Mesmo com esses poréns, estou muito ansiosa para o final, Game of Thrones ainda é uma das minhas séries favoritas.  Ao mesmo tempo, fico me perguntando se GRR Martin teria feito as mesmas escolhas se tivesse terminado de escrever os livros ou se ainda estivesse na consultoria criativa da série. Creio que nunca teremos essa resposta, então é melhor nos contentarmos com o final de D&D: um final (que tem tudo para ser)  decepcionante é melhor do que nenhum.

Nota 4/5