SPOILERS SOBRE O EPISÓDIO FINAL DE GAME OF THRONES.

O primeiro parágrafo de “Um conto de duas cidades” é um dos meus favoritos da literatura. Começa com “aquele foi o melhor dos tempos, aquele foi o pior dos tempos” e vai seguindo numa série de frases opostas umas as outras para retratar o período apresentando. Utilizando o mesmo molde de Dickens no início desse livro, digo que esse foi o melhor dos finais e, ao mesmo tempo também o pior.

Eu explico. Quando Tyrion se pôs a dar a sua opinião e dizer que o que une todas as pessoas são a história, eu logo percebi onde aquele papo ia levar e, confesso, não gostei nada. Passamos 10 anos esperando para ver quem se sentará no trono de ferro e, de repente, o escolhido é um pirralho que caiu de uma torre no primeiro episódio. Bran, o quebrado.

Passado o susto, veio o raciocínio. Bran não irá se sentar no trono de ferro; O trono não existe mais. Depois que Jon mata Daenerys, Drogon faz a destruição do maior objeto de desejo da série – confesso que vibrei demais nessa cena, pensando que talvez se tratasse da tão sonhada democracia.

Mas ledo engano. Westeros não está preparada para a democracia. Após se tornar o regicida matando Daenerys (uma cena triste e com um quê de injustiça; triste ver uma personagem que veio de tão longe terminando dessa forma), Jon é preso e corre risco de ser executado pelos Imaculados. “Não cabe a você julgar”, diz Tyrion a Verme Cinzento, “isto é papel do rei”. “Mas quem será o rei?” é então que começa a conversa que leva Tyrion a apresentar Bran como uma solução viável.

Como eu disse, a primeira reação foi odiar isso com todas as minhas forças. Ao ver Bran respondendo que viajou de tão longe para aquilo, eu me senti 100% enganada. O que Bran fez para levá-lo até esse ponto? Qual as habilidades que ele possui para liderar qualquer coisa? O corvo de três olhos não teria mais nada de interessante para fazer do que governar uma cidade?  Muito, muito errado.

Mas, agora quando penso no assunto, vejo que não haveria resultado que agradasse a todos. Podemos até discordar do que foi feito a Daenerys nessa temporada mas, depois do quinto episódio, não havia possibilidade dela se tornar rainha. Na primeira cena em que ela aparece neste episódio já percebemos que ela foi de desequilibrada para vilã total em questão de um episódio – fiquei até com medo. Aquele discurso para o seus soldados é bem III Reich e, sabemos, não dá para torcer pelo III Reich.

Já Jon Stargeryen (Stark + Targeryen) é, como sempre, alguém muito relutante em agir e, ao meu ver, muito pouco preparado para ser rei. É necessário que Tyrion haja como a consciência de Jon, instando-o a evitar que Daenerys continue com seu projeto de destruição. O problema é que atitude que é feita para salvar Westeros é também aquela que o afasta totalmente do trono – quem vai querer ser governado por um regicida?

Faltam poucos minutos para o final do episódio e Jon e Daenerys já são incapacitados de exercer a liderança dos 7 reinos. Quem é que sobra? A série está acabando, não há tempo de desenvolver um arco para conseguir um terceiro nome. O que fazer? Era necessário que houvesse algum tipo de consenso com relação a escolha e Bran era o único personagem que ainda não tinha mostrado qual era o sentido da sua existência ou que fim levaria. Ao mesmo tempo, depois de tudo o que vimos, Bran deveria ter alguma importância na história, não deveria? Ninguém ficaria muito ofendido com ele atingindo essa posição.

Colocar “O corvo de Três Olhos” como Rei foi uma forma de amarrar a história sem maiores complicações. Após sua coroação, tudo parece se acertar: Tyrion é – novamente – a mão do rei, Jon não morre (mas é como se tivesse). As irmãs Stark mostram porque os lobos dominaram a série e todos os reinos possíveis, são as que tiveram o melhor desenvolvimento, principalmente Sansa, que foi de admiradora da Corte para Rainha do Norte.

 Arya Stark não completou sua vingança, mas também não é a mesma pessoa do início da história – a corte ou Winterfell ficaram muito pequenos para ela. Ela então vai embora de navio, mais ou menos como Edmond Dantés ao final de “O conde de Monte Cristo”, embora com o coração muito mais apaziguado que este. Não imagino que ela ou Jon voltem a Westeros algum dia, mas o final é aberto então tudo é possível. “Esperar e ter esperança”.

Todos esses desfechos só foram possíveis com Bran rei. “Ah, mas poderia ter acontecido tudo isso com Jon”. Talvez, mas Jon é um regicida. E há algo de poético ao ver que aquele que uniria Norte e Sul terminou exatamente onde começou, no Norte e indo ainda mais longe.

O grande erro dos roteiristas foi não terem conseguido construir um arco decente nessas últimas duas temporadas; as duas pareceram completamente avulsas das outras seis e também distintas uma da outra. Qual acontecimento da sétima temporada foi útil para que esse final viesse? Nenhum e isso é bem problemático.

Faltou planejamento no desenvolvimento dos personagens a longo prazo e faltou um pouquinho de talento no roteiro também. Mas, talvez por que não estivesse esperando nada, eu até que gostei da oitava temporada. Concordo que há muitos problemas mas consegui, ao final desse episódio seis da oitava temporada, terminar a série com uma sensação mais positiva do que negativa.

Por isso, depois de imaginar que passaria essa temporada inteira xingando muito nos posts daqui, me vejo na obrigação de defender esse desfecho. Sentirei falta dessa história e desses personagens mas fiquei com a sensação de que tudo terminou bem.

Poderia ser melhor ou mais grandioso, que é o que todos acostumaram-se a esperar de Game Of Thrones. Mas a série não é sinônimo de “melhor” há muito tempo.

Por isso, aceito esse final com a certeza e resignação de que também poderia ser bem pior.

 

Nota 3/5