(sem spoilers, por enquanto)

Insanidade, psicose, demência, delírio, alienação, esquizofrenia, palavras facilmente substituíveis pela expressão ‘distúrbio mental’, ou ‘perca da lucidez’ ou, simplesmente, LOUCURA. Esta, por sua vez, sempre esteve associada ao palhaço do crime que, ao longo das últimas oito décadas, o mundo passou a conhecer como CORINGA, tendo se tornado não só o maior antagonista do Batman, como também um dos mais icônicos vilões de toda a história da Cultura Pop. Coringa, o filme dirigido por Todd Phillips, está aí para comprovar isso. Inicialmente tendo sua produção vinculada ao nome de Martin Scorsese, logo depois ficou definido que o aclamado cineasta não teria nenhum envolvimento direto no projeto, embora esteja plenamente ciente da influência que algumas de suas obras exerceriam no longa. E o trabalho anterior de Phillips, Cães de Guerra, não nega sua inspiração em clássicos do conterrâneo nova-iorquino.

ROBERT DE NIRO EM TAXI DRIVER E TOURO INDOMÁVEL, AMBOS DE SCORSESE

Um dos maiores nomes surgidos na chamada Nova Hollywood, período marcado pelo estabelecimento, nos anos 1970, dos cineastas autorais (entre eles Steven Spielberg, George Lucas, Francis Ford Coppola e Brian De Palma), com ousadas e revolucionárias ideias que redefiniram os rumos que o cinema da terra do Tio Sam pós era hippie passaria a ter dali em diante, Martin Scorsese focou sua câmera nas neuroses urbanas de sua cidade natal e, com isso, nos presenteou com seus primeiros clássicos: Caminhos Perigosos em 1973 e Taxi Driver em 1976. Mas é de 1983 o seu filme que possui a maior identificação conceitual com o ousado projeto solo de nosso vilão lançado em 2019. Após ganhar o Oscar de Melhor Ator por Touro Indomável, de 1980, outra obra-prima de Scorsese, Robert De Niro retoma a parceria (essa seria a quinta, num total de nove até agora) com o diretor e amigo e, juntamente com o comediante Jerry Lewis, um dos maiores ícones do humor nas telonas desde os anos 1940 (e que nos deixou em 2017, aos 91 anos), viabilizam a realização dessa produção que seria lançada em 1983 com o nome de… O Rei da Comédia.

CARTAZES DE LIZA MINNELLI E JERRY LEWIS NA CASA DE RUPERT PUPKIN AJUDAM A ALIMENTAR SUAS ALUCINAÇÕES

Mas não se deixe enganar por este título que poderia sugerir tratar-se de um longa engraçado e divertido, pois ele passa longe disso, e segue por outro caminho, aprofundando-se na paranoia de seu protagonista, um aspirante a comediante que quer ter uma chance no show business, e cujas atitudes geram consequências… inconsequentes, algo semelhante ao visto nos flashbacks iniciais da graphic novel A Piada Mortal, lançada pela DC Comics em 1988, escrita por Alan Moore e ilustrada por Brian Bolland, e que se tornou, no decorrer dos anos, a história de origem mais famosa do Coringa. Aqui temos, portanto, no mínimo, três obras dialogando.

Eu achava que minha vida era uma tragédia, mas agora percebo que é uma comédia.”

– Coringa

Um dos grandes trunfos de O Rei da Comédia é a confusão proposital da edição, que nos mostra – sem nenhuma diferenciação aparente na paleta de cores ou qualquer outro aspecto técnico – o que está acontecendo na trama em paralelo com o que está sendo apenas imaginado pelo protagonista, pois Rupert Pupkin (sim, este é o excêntrico nome do personagem de De Niro) é tão obcecado por seu ídolo, o comediante Jerry Langford (Jerry Lewis, convincentemente sério) a ponto de projetar em sua mente uma grande amizade entre eles e, com isso, visualizar acontecimentos que ele ACREDITA SEREM REAIS, a ponto de ele não conseguir mais discernir a realidade do que ele gostaria que fosse a realidade. Com isso, nós, expectadores, somos pegos de surpresa com passagens provindas da mente perturbada do pobre comediante fracassado, e outras da trama ‘real’. Só que, em dado momento, uma passagem que parece ser fruto da imaginação de Rupert, na verdade, não é, de forma que somos surpreendidos com o andamento da sequencia, especificamente aquela envolvendo Rupert, sua namorada (Diahnne Abbott, que na época era casada com De Niro na vida real, real de verdade!), e a constrangedora visita dos dois à casa de campo de Jerry.

Outro aspecto importante, e propositalmente desagradável do longa: os ‘chás de cadeira’ aos quais Rupert se submete, sempre com um sorriso amarelo no rosto, disfarçando o descontentamento com a espera eterna, na esperança de ser ouvido por Jerry, de ser chamado para adentrar os estúdios da emissora de TV, e de participar de seu talk show. Isso é algo muito triste, pois nos faz lembrar dos sonhos que todo ser humano tem de trabalhar com o que gosta, se sustentar com isso e, por fim, se realizar profissionalmente. Quem nunca passou por situação semelhante, esperando para falar com alguém ‘importante’ que, supostamente, poderia lhe dar uma chance na vida, alguém que, SE REALMENTE QUISESSE TE AJUDAR, te ajudaria. As insistências de Rupert para ser ouvido, portanto, além de serem inconvenientes, também traçam um paralelo com a vida de milhares de pessoas, principalmente no mundo midiático digital online de hoje em dia, muitas delas detentoras de talento genuíno, apenas em busca de uma oportunidade…

Se você ainda não assistiu O Rei da Comédia e pretende fazê-lo (o que nós recomendamos muito!!!), então pule o próximo parágrafo e vá direto para o último, porque você acaba de receber um ALERTA DE SPOILERS!!!

Não satisfeito em não conseguir a atenção do Jerry Langford ‘real’, o que, na sua cabeça, entra em conflito com a profunda amizade que ele tinha certeza que possuía com o astro, Rupert Pupkin, juntamente com uma amiga (Sandra Bernhard) quase tão louca quanto ele, sequestra o comediante, e o obriga a deixa-lo se apresentar em seu programa de TV. Um telefonema providencia o acordo, e eis que lá vai Pupkin para o seu glorioso momento na frente das câmeras. Ele pede para ser chamado de “O Rei”. Logo depois do deprimente stand up que lhe dá cinco minutos de fama, ele é preso, ao passo que Jerry já havia conseguido escapar de onde era mantido cativo. Após ter pego seis anos de pena, mas cumprido apenas dois anos e nove meses, Pupking é solto, e é lembrado pelo público norte-americano que o viu na TV naquela única noite. Em sua nova fase pós-prisão, ele estampa capas de revistas, concede entrevistas, lança um livro de memórias que se torna best-seller e apresenta seu próprio show, sendo calorosamente aplaudido e tendo seu nome várias vezes anunciado pelo locutor que não para de dizer à plateia: “Este é Rupert Pupkin! Aplaudam Rupert Pupkin!” A questão é: isto realmente aconteceu com ele no fim da história, ou toda esta sequência final é apenas mais um delírio oriundo de sua mente desequilibrada? Pegando emprestado o questionamento de outro filme cult, o peão continua a girar ou caiu? Você decide! FIM DOS SPOILERS!!!

É melhor ser rei por uma noite do que um idiota pela vida inteira.”

– Rupert Pupkin

Robert De Niro fez mais um belíssimo trabalho em O Rei da Comédia, e também está no elenco de Coringa, desta vez, do outro lado do palco, ou seja, agora ele é o astro de prestigio, e o jovem palhaço vivido por Joaquim Phoenix é que está em busca de uma chance… Além destas obvias similaridades entre as duas produções, há também todo o elemento estético e atmosférico envolvendo a direção de arte e os figurinos, afinal, Coringa se passa no início dos anos 1980 e quer nos transmitir toda aquela ambientação ‘newhollywoodiana’. Outros longas do período, inevitavelmente, também são referenciados, como Operação França, Um Dia de Cão, Rede de Intrigas e o já citado Taxi Driver. Vale a pena garimpar por eles! E, se até então, você não havia se interessado por O Rei da Comedia… veja, e você irá se deleitar com mais um belo trabalho realizado por um mestre da Sétima Arte, além, é claro, de entender suas referências em Coringa. A nova produção da Warner/DC, portanto, além de seus muitos atributos, presta uma grandiosa homenagem à Hollywood de outrora e, se já não tinha ficado claro o suficiente, reafirma que adaptações de HQs rendem, sim, filmes dignos de serem considerados obras-primas do cinema.

O Rei da Comédia (The King of Comedy). EUA, 1983, 1h 50min. Direção: Martin Scorsese. Com: Robert De Niro, Jerry Lewis, Sandra Bernhard, Diahnne Abbott. Drama. Fox.